Teatro olímpico

Os ingleses foram perspicazes ao citar, na festa de abertura dos Jogos, trecho de A tempestade, tida como penúltima obra de William Shakespeare, medalha de ouro em literatura e em conhecimento da alma humana. A referência à peça do Bardo foi emblemática. A Olimpíada é uma grande representação, um enorme teatro que tem o esporte como pano de fundo. Nas duas semanas de duração, ela derrama dramas, comédias e poemas épicos por ginásios, campos, tablados, raias. Coleciona histórias de decepções e de superação.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2012 | 03h04

Uma das mais impressionantes encenações nos dois dias oficiais de disputas deu-se no início da noite de ontem (no horário inglês, of course), na decisão do revezamento 4 x 1oom livre da natação. O time dos EUA era favorito - pudera, tinha os fenomenais e inimigos Michael Phelps (que no sábado ficara em 4.º nos 400 medley, prova da qual é bicampeão olímpico) e Ryan Lochte juntos. O primeiro fez a parte dele e abriu vantagem. O outro foi o último a cair na piscina e nem deve ter-lhe passado pela cabeça que o título escorreria pelo ralo. Mas, nas braçadas derradeiras, topou com Yannick Agnel a passar-lhe pela esquerda. Quando se deu conta, os franceses festejavam a proeza. Os americanos ficaram com cara de "Como foi possível, my God?!"

Foi possível porque o esporte tem surpresas, que nem sempre são obras do acaso. De qualquer forma, a graça mora no inesperado, no imprevisível, no desempenho que derruba previsões e estatísticas. A medalha de ouro para os EUA era tida como barbada pelos especialistas, que chegaram àquela conclusão por A + B, por avaliação de tempos e resultados. Daí vem o rapazinho, o tal de Agnel, nada feito um doido, manda a prospecção para o espaço e se deliciou com a Marselhesa entoada enquanto subia a bandeira do país dele.

Quase no mesmo horário, a moçada de Honduras pouco se lixou para a fama atual da Espanha no futebol, se inspirou na façanha do Japão na primeira rodada e também lascou 1 a 0 no bicho-papão. Deixou todo mundo de queixo caído no Saint Jame's Park e acelerou a saída dos europeus da competição. Dava para imaginar que a Fúria (sei, hoje prefere ser chamada de La Roja, mas gosto do apelido clássico) seria despachada assim? Roteiro para algum Shakespeare do esporte escrever...

Outra que ensaiou aprontar foi a Bielorrússia, e pra cima do Brasil. No meio da tarde, com gol de brasileiro adotado (Bressan), saltou à frente e por alguns minutos saboreou placar inédito. A ordem natural foi restabelecida pouco depois, com o empate (Pato), e se consolidou com a virada na etapa final, quando Neymar e Oscar decretaram os 3 a 1.

A seleção de Mano Menezes recita o script original, numa chave que lhe é favorável, segue adiante, mas outra vez negou espetáculo e mostrou falhas no sistema defensivo. O destaque foi Neymar, e Neymar esteve aquém do que se espera dele. A frase anterior soa contraditória, mas embute observações verdadeiras. O astro santista foi decisivo, ao dar os passes para os gols e por marcar o segundo, em cobrança de falta que ele havia sofrido.

Só virou o Neymar habitual no momento em que trocou comedimento que não lhe cai bem por irreverência e ousadia criativas. Em suma, quando driblou adversários e se deixou tomar pela intuição. Antes parecia preocupado demais em não contrariar o técnico. Por isso, se tolheu. Bastou abrir espaço para a espontaneidade para desequilibrar o jogo.

Por falar em equilíbrio e temas afins, me comoveu a reação de Diego e Daniele Hypolito. Os manos arrasam em provas de ginástica mundo afora, se enchem de esperança e ...não levam sorte nos Jogos. Outra vez pararam no meio do caminho e reconheceram instabilidade emocional. A sinceridade e as carinhas tristes me tocam e não iria aqui descer o malho. Atletas como eles não ralam desde a infância para ver o sonho romper-se num movimento em falso. Isso é drama. Dói.

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