Saulo Cruz/ CPB
Saulo Cruz/ CPB

Técnica do Brasil no rúgbi paralímpico, Ana relata preconceito e assédio na modalidade

No cargo desde 2016, ela é a primeira mulher a comandar a seleção do País

João Prata, enviado especial a Lima, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2019 | 14h52
Atualizado 05 de setembro de 2019 | 14h45

Ana Ramkrapes é a primeira técnica a comandar um time de rúgbi em cadeira de rodas no País. Desde 2016 está à frente da seleção brasileira da modalidade com um projeto de trabalho que visa os Jogos Paralímpicos de Tóquio-2020. Nesta sexta-feira, a equipe estreou com vitória no Parapan de Lima ao bater a Colômbia por 48 a 41 em um jogo tranquilo.

O esporte é misto, mas Ana comanda uma equipe formada por 12 homens. Estar em um cargo de chefia em um espaço majoritariamente masculino é tarefa árdua. Além de se impor em meio a seus jogadores, ela convive constantemente com o machismo. "Infelizmente a mulher precisa sempre estar um passo a frente para mostrar seu valor. Brinco com meu auxiliar, Manoel, que cada informação que eu dava no início era uma defesa de tese. Tinha que medir cada palavra, deixar muito claro a importância de cada frase para ganhar confiança", disse em entrevista ao Estado.

Formada em Educação Física pela Unicamp, ela conheceu o rúgbi em cadeira de rodas nos primeiros anos da universidade. Ela conta que foi paixão à primeira vista. O início foi como estagiária na preparação física. Pouco depois, teve a ideia de criar um time, o Gigantes, em 2013, e se tornou treinadora. Hoje essa equipe é a base da seleção brasileira.

Os primeiros meses no cargo de técnica foram complicados. Ana pedia para que seu auxiliar falasse em seu lugar por vergonha. "Me sentia insegura. Mas ele me respondia: 'Fala você. Você tem que conquistar seu espaço, estou do seu lado'", lembrou. "Sentia que quando eu falava alguma coisa, dava uma informação nova, era pouco assimilada pelos jogadores. E percebia que quando ele falava os atletas ouviam mais. Precisei mudar o tom de voz, ser um pouco mais dura para ser respeitada." 

NO GRITO

Quem vê hoje Ana no banco de reservas da seleção nota essa transformação. Ela grita, gesticula e é prontamente atendida. Em um jogo do Campeonato Brasileiro deste ano, quando sentiu que a comunicação estava complicada com sua equipe, arrumou uma cadeira de rodas e passou o jogo inteiro indo e vindo, de um lado ao outro, berrando na mesma altura, de igual para igual com os atletas, todos tetraplégicos.

O respeito de toda a seleção, ela sente que conquistou recentemente, durante uma competição na Polônia, em julho. "Foi quando ouvi de um atleta: 'se você está falando é porque você sabe'. A convivência também ajuda. Foram cinco semanas de treinamento neste ano. Consegui ir conquistando. As vezes me deparo com situações que me incomodo como mulher."

VÍTIMA DE ASSÉDIO 

Durante esse torneio europeu, ela foi assediada. "Um dos staffs de outro país tentou ter um contato físico. Tentou passar a mão em mim, uma coisa muito sexista. Não tive reação na hora. Os meninos que foram atrás do cara, queriam agredi-lo. Foi horrível. Por outro lado vi que os meninos me entendem, me protegem. Mas é uma pena, porque não queria que me protegessem e só que me respeitassem", afirmou.

A maioria dos técnicos dos outros times acha que o Manoel é o treinador brasileiro e costumam falar com ele antes dela. "Aí você vê que nunca acham que a mulher é a primeira no comando. Realmente não sei o que me puxa tão forte para essa modalidade. Não tem o que explicar. A seleção brasileira hoje é um clima muito bom, de família mesmo. Recebo os meninos em casa, somos muito próximos."

A arbitragem é outro empecilho. "Sinto que tem diferença sim. Teve uma vez que a situação me beneficiava, mas disse ao árbitro que estava errado. Ele não me escutou. O técnico do outro time veio, trouxe o estatístico e aí o árbitro então mudou a súmula, que é o documento oficial, que é algo que não se muda", exemplificou.

Por enfrentar tantas dificuldades somente pelo fato de ser mulher, há momentos em que ela pensa em desistir. Logo depois da viagem a Polônia, onde o Brasil terminou em quarto lugar, Ana cogitou pedir demissão, mas foi impedida pelos atletas. "Chorei muito e fui conversar com os meninos porque parecia que o fato de eu ser mulher estava atrapalhando o time. Mas eles ficaram do meu lado. E disseram que se for isso, tudo bem, pois preferem perder comigo no comando. Isso me deu forças para seguir e espero evoluir ainda mais para os Jogos de Tóquio."

A seleção brasileira do rúgbi em cadeira de rodas tem melhorado seu desempenho nos últimos anos. Ana assumiu com a equipe em 19º lugar do ranking mundial. Três anos depois, saltou dez posições e ocupa a nona colocação. No Parapan de Lima os principais adversários são os Estados Unidos, a Colômbia e o Canadá. O objetivo é recuperar a medalha que o time deixou escapar em Toronto-2015.

AS REGRAS DO RÚGBI EM CADEIRA DE RODAS

O rúgbi em cadeira de rodas ocorre em quadras de 15m de largura por 28m de comprimento. São quatro períodos de oito minutos cada. O objetivo é passar a linha do gol com as duas rodas e a bola nas mãos. São quatro atletas para cada lado e oito reservas. Os times podem ter homens e mulheres, contanto que sejam tetraplégicos. Os jogadores são divididos em sete diferentes classes, que variam de 0,5 a 3,5. O time em quadra não pode ultrapassar a soma total de 8.

 

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