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Técnica, gestora da olimpíada também terá papel político

Maria Silvia Marques, do Icatu, assume em agosto o cargo de ''prefeita'' dos Jogos

Luciana Nunes Leal / RIO, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2011 | 00h00

A economista Maria Silvia Bastos Marques foi chamada de ''Mulher de 1 Bilhão de Dólares'' quando ocupou a Secretaria Municipal de Fazenda do Rio, no governo Cesar Maia, e de "Dama de Aço", quando presidiu a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Em agosto, voltará ao poder público, e já ganhou um apelido do futuro chefe, o prefeito Eduardo Paes: "Ela será a prefeita da Olimpíada", afirma ele.

Aos 53 anos, Maria Silvia vai presidir a Autoridade Olímpica Municipal, estatal municipal recém criada por Paes para comandar as ações da prefeitura da cidade na preparação dos Jogos de 2016 no Rio - decisão que gerou mal-estar no governo federal por não estar prevista no protocolo assinado com o Comitê Olímpico Internacional (COI) por ocasião da escolha do Rio como sede do evento.

Paes elogia o perfil de gestora moderna, com bom trânsito no setor privado e capacidade de planejamento. Foram os mesmos critérios que fizeram a presidente Dilma Rousseff escolher o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles para o comando da Autoridade Pública Olímpica (APO), a coordenadora federal dos Jogos. Nos dois casos, também pesou o fato de os escolhidos não terem sido indicados por políticos ou partidos.

"Maria Silvia está à altura do Meirelles", diz Paes. "No município, ela só não estará acima do prefeito. Vai lidar com tudo, das obras de transporte às negociações para mudar a legislação de construção da rede hoteleira", avisa. A executiva também será a representante do Rio na APO.

Paes diz que foi aconselhado a criar uma estrutura específica para a Olimpíada por prefeitos de outras sedes dos Jogos, como Atenas e Barcelona. "Não posso deixar de ser prefeito do Rio para cuidar apenas de Olimpíada. Então, peguei o nome mais qualificado. Eu canto a Maria Silvia para ir para a prefeitura desde que ganhei a eleição", conta o prefeito.

A estrutura da Autoridade Olímpica Municipal, com número de funcionários e salários, ainda está em discussão (é o caso, também, da entidade federal).

No Rio, a ideia é absorver o Instituto Rio 2016, criado em 2010 para gerenciar as ações da Olimpíada. Atual diretor executivo do Instituto, o publicitário Bernardo Carvalho deverá ser nomeado assessor de Maria Silvia.

Assim como a APO, a empresa pública municipal terá margem para contratar técnicos com salários mais próximos do setor privado. Meirelles, por exemplo, ganhará R$ 22 mil mensais na APO. O salário de Maria Silvia deverá ficar um pouco abaixo deste patamar.

O ex-presidente do Banco Central tem evitado falar do trabalho na APO até que seu nome seja aprovado pelo Senado (que também vai chancelar a estrutura funcional do órgão).

Informalmente, o ex-presidente do BC nos anos Lula (2003-2010) elogiou a escolha de Maria Silvia. A futura presidente da autoridade olímpica seguiu na mesma linha: disse que só dará entrevista depois que deixar a presidência da Icatu Seguros, cargo que ocupa há quatro anos.

Além das funções técnicas, Maria Silvia também terá um papel político de tentar manter o bom relacionamento entre município, Estado e União. A criação da APO só foi possível depois de uma série de ajustes feitos pela presidente Dilma a pedido de Paes e do governador Sérgio Cabral (PMDB), que se preocuparam com poderes excessivos da instituição federal.

Uma das maiores preocupações de Eduardo Paes é deixar clara a definição das obras e obrigações que cabem ao município, ao Estado e à União e, assim, evitar cobranças indevidas dos órgãos fiscalizadores. Somando obras viárias, de revitalização, urbanização de favelas, programas assistenciais, projetos ambientais e construção de espaços de esporte e lazer, a prefeitura vai investir R$ 18 bilhões em preparativos para a Copa de 2014 e para os Jogos de 2016. "O papel da prefeitura é deixar o legado para a cidade", diz o prefeito.

Pé de meia. Em entrevista à Fundação Getúlio Vargas, em 1999, Maria Silvia, na época presidente da CSN, foi questionada sobre os motivos de ter negado convites do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para o comando do BNDES e da Petrobras. "Eu preciso fazer um pé de meia", respondeu .

Primeira e única mulher no comando da siderúrgica, onde ficou de 1996 a 2002, Maria Silvia, mãe dos gêmeos Olavo e Catarina, de 14 anos, está acostumada a ocupar cargos tradicionalmente masculinos e aponta as vantagens do comando feminino: "Temos capacidade de liderar times, de falar "nós" em vez de "eu" e de fazer múltiplas tarefas ao mesmo tempo", resumiu a executiva em uma entrevista recente.

Nascida em Bom Jesus de Itabapoana, no interior fluminense, filha de um médico e de uma pianista, Maria Silvia conta que decidiu estudar e viver na capital porque sempre gostou "do anonimato da cidade grande". No governo Collor, a economista trabalhou no BNDES, primeiro como negociadora da dívida externa, depois na privatização das estatais.

Para o ex-prefeito Cesar Maia, que levou Maria Silvia para a Secretaria de Fazenda em 1993 e, ao fim do governo, em 1996, anunciou ter US$ 1 bilhão em caixa, uma de suas qualidades é a "capacidade de formar equipe".

A carta branca do prefeito Eduardo Paes para Maria Silvia vai além da preparação dos Jogos de 2016.

Ele planeja entregar à executiva a coordenação da revitalização da região do Porto do Rio, principal projeto de seu governo e promessa de campanha, antes a cargo do secretário de Desenvolvimento, Felipe Góes, que trocará a prefeitura pela iniciativa privada. "O porto e os Jogos Olímpicos têm uma ligação grande", diz Paes.

QUEM É

MARIA SILVIA MARQUES

FUTURA PRESIDENTE DA AUTORIDADE OLÍMPICA MUNICIPAL DO RIO

Carreira: Presidente da Icatu Seguros, foi secretária municipal da Fazenda no Rio (1993-1996) e

primeira mulher na diretoria do BNDES. Presidiu a CSN (Companhia

Siderúrgica Nacional) e lecionou na Pontifícia Universidade Católica-RJ

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