Valéria Gonçalvez/AE
Valéria Gonçalvez/AE

Técnico Jayme Netto assume culpa por doping dos brasileiros

Ele indicou o fisiologista Pedro Balikian, que ministrou doses da substância eritropoietina (EPO) aos atletas

Amanda Romanelli - O Estado de S. Paulo,

05 Agosto 2009 | 16h05

Os técnicos Jayme Netto Júnior e Inaldo Sena admitiram culpa no caso de doping de cinco brasileiros que estavam classificados para a disputa do Mundial de Atletismo de Berlim - com o resultado positivo do exame, todos ficaram de fora do campeonato marcado para começar no dia 15 de agosto. Os dois afirmaram nesta quarta-feira ter concordado com o uso da substância proibida eritropoietina (EPO) para acelerar o processo de recuperação dos atletas.

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Com a confissão dos treinadores, a análise da contraprova servirá apenas para oficializar os resultados positivos de Bruno Lins (200m e revezamento 4x100m), Jorge Célio Sena (200m e revezamento 4x100m), Josiane Tito (revezamento 4x400m), Luciana França (400m com barreiras) e Lucimara Silvestre (heptatlo). Todos eles defendem a equipe Rede Atletismo, foram flagrados em teste surpresa realizado em 15 de junho, em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, e devem ser suspensos por dois anos.

 

Jayme Netto, um dos principais técnicos do País e responsável pelos treinos de Bruno, Jorge Célio e Lucimara, afirmou que sua carreira acabou. "A ambição que me levou a fraquejar. Até abril, eu nunca havia permitido qualquer interferência em meu trabalho. Mas perdi o controle", admitiu o treinador. Inaldo Sena, que trabalhava com Josiane e Luciana, deve continuar na profissão.

 

Jayme Netto afirmou que foi convencido por Pedro Balikian Júnior, coordenador do Laboratório de Fisiologia do Exercício da Unesp, a utilizar pequenas doses de EPO nos atletas, por meio de injeções na barriga. "Minha intenção nunca foi melhorar desempenho. Mas ele me mostrou, com inúmeros estudos, que a substância poderia ajudá-los no período de recuperação. Fui ingênuo em permitir e quero acreditar que ele não estava mal-intencionado", disse o técnico.

 

Os dois técnicos revelaram que outros atletas, além dos que tiveram resultado positivo, utilizaram EPO, mas não foram pegos - 13 testes foram realizados naquele dia. Inaldo Sena chegou a dizer que o flagra foi benéfico. "Se tivesse dado certo, talvez o uso da substância ficasse disseminado", explicou. Enquanto isso, Jayme Netto afirmou que não seus comandados não sabiam do uso da substância proibida. "Eles achavam que eram aminoácidos", contou.

 

Os atletas e os técnicos já estavam nos arredores da capital alemã, finalizando a preparação para o Mundial. Com a divulgação do doping, na última terça-feira, eles retornaram imediatamente ao Brasil. Chegaram na manhã desta quarta e seguiram para Bragança Paulista, no interior de São Paulo, onde fica a sede da Rede Atletismo. Lá, todos os envolvidos deram explicações ao presidente da equipe, Jorge Queiroz de Moraes Júnior, a respeito dos testes.

 

"Eles (os cinco atletas) não tinham ideia do que estavam ingerindo", disse o presidente da Rede Atletismo, muito emocionado, durante entrevista coletiva desta quarta-feira - Jayme Netto e Inaldo Sena, abatidos, choravam bastante. "Mas também não posso acreditar que eles achavam normal tomar injeções na barriga. O fato é que confiaram plenamente nos técnicos."

 

A Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) já suspendeu provisoriamente os dois técnicos, até que eles sejam julgados, mesmo procedimento adotado com os cinco atletas. Enquanto isso, três atletas viajaram nesta quarta-feira para completar as equipes de revezamento do Brasil no Mundial de Berlim. Aílson da Silva Feitosa e Nilson de Oliveira André completarão o 4x100 metros, enquanto Bárbara Farias fará parte do 4x400 metros.

 

SILÊNCIO

A reportagem do Estado esteve na Faculdade de Educação Física da Unesp para ouvir Pedro Balikian, acusado por Jayme Netto de ter ministrado as substâncias ilícitas aos atletas. O fisiologista, no entanto, evitou a imprensa nesta quarta-feira. Ele não apareceu no campus, enquanto seus colegas preferiram omitir informações.

 

A assessoria de imprensa da Unesp disse que só se manifestaria após ter detalhes do caso de doping. Professores que trabalham com Pedro Balikian, no entanto, saíram em sua defesa e afirmaram duvidar das acusações. "O Pedro não faria uma burrada dessas. Algum médico pode ter receitado e, agora, querem culpá-lo", declarou um professor que pediu anonimato.

 

O técnico Inaldo Sena afirmou que, após ter recebido a confirmação do doping, tentou falar com Pedro Balikian, que é formado em Educação Física pela PUC e doutor em Biologia Funcional e Molecular pela Unicamp. "Foi na segunda à noite. Liguei e ele pediu que retornasse em 30 minutos. Depois não me atendeu mais", revelou. Jayme Netto também não conseguiu encontrá-lo.

(atualizado às 21h17 para acréscimo de informação)

 

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