Técnicos de linha

Boleiros

Marcos Caetano, marcos.caetano@terra.com.br, O Estadao de S.Paulo

27 de outubro de 2007 | 00h00

Vem de longe a tradição de ex-jogadores de futebol que se tornam treinadores de ofício. No mundo inteiro, essa é uma fórmula que já deu muitos resultados. No Brasil, chega a ser quase a regra. O nome mais conhecido e bem-sucedido, entre todos os ex-jogadores treinadores, anunciou há pouco sua aposentadoria. Em seu currículo brilhante, um título e um vice-campeonato da Copa do Mundo como treinador e outro título como coordenador técnico, além de duas conquistas dentro das quatro linhas. Trata-se de Mário Jorge Lobo Zagallo, figura importante nos quatro primeiros triunfos mundiais da seleção.Outros nomes da geração do alagoano Zagallo também fizeram sucesso com o agasalho de treinador: o genial e elegante Didi e o inesquecível Telê Santana estão entre eles. Das gerações seguintes, poderíamos destacar Felipão e Luxemburgo, ambos com passagem pela seleção. Também com passagens pela seleção, ainda que sem grande sucesso, temos os ex-jogadores Falcão, Edu e Leão. A bola da vez é Dunga. Ex-boleiros, como Felipão, Luxa e Joel Santana, obtiveram mais sucesso com a prancheta na mão do que com a bola nos pés. Mas há técnicos que ainda não conseguiram se aproximar do brilho de suas conquistas dentro de campo. Os já citados Falcão e Edu, além de Zico e Mário Sérgio, são alguns exemplos.No resto do mundo é igual. Só a Holanda tem algumas gerações de ex-jogadores que fizeram a transição para a carreira de técnico: Cruyff, Rijkaard e Van Basten, entre outros. E, em outros países, Zoff, Matthäus, Klinsmann, Beckenbauer, Bilardo, Menotti... A lista é infindável. O Brasil, no entanto, tem mostrado certa tradição numa pirueta ainda mais complicada do que a do ex-jogador que vira treinador: a do atual jogador que acumula a função de treinador. O caso de Romário, que estreou e se aposentou como técnico do Vasco na última quarta-feira, marcou outro capítulo dessa curiosa história.Chamado ironicamente de "Professor Baixola" pelos comandados - e ao mesmo tempo companheiros de equipe -, Romário parece ter gostado da experiência, apesar do amargor da vitória magra, que custou a eliminação de seu time da Sul-Americana. O artilheiro dos 1.002 gols mostrou humildade. Começou no banco e só se escalou para entrar com o desenrolar da partida. Apesar do esforço, não continua à frente do elenco que o inclui. Eurico Miranda anunciou a contratação de Valdir Espinosa, técnico campeão mundial pelo Grêmio, em 1983: velho conhecido de Romário.O que fazia Espinosa antes de virar técnico? Ora, jogava futebol, claro. Foi lateral do Grêmio. Grêmio, cujo time campeão mundial teve como grande destaque o audacioso ponta-direita Renato Portaluppi. E o que faz Renato hoje? Ele é treinador, claro. Curiosamente, Espinosa treinou Renato, que jogou ao lado de Romário - e chegou a treiná-lo. Curiosamente, Renato estreou como treinador quando ainda jogava pelo Fluminense. O Flu acabou rebaixado para a 2.ª Divisão, mas o gaúcho teve sua revanche, quando, no início do ano, levou o time ao título da Copa do Brasil, o primeiro de sua ainda jovem carreira.O grande desafio para um jogador de futebol que se torna treinador deveria ser a de construir uma carreira à margem das quatro linhas tão bem-sucedida quanto a que construiu dentro das quatro linhas. Entretanto, convenhamos que isso é bem mais fácil para jogadores apenas razoáveis, como Felipão, Luxemburgo e Espinosa, do que para craques como Zico, Renato e Romário. Até nisso Zagallo se destacou. Ele foi um ótimo jogador e um grande treinador - algo muito raro de ver.

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