Satiro Sodre/SSPress
Satiro Sodre/SSPress

Tecnologia ajuda treinadores a formarem novos 'Phelps'

Aliado à mudança de mentalidade nos treinamentos, técnicos ganham novas ferramentas para fabricar atletas quase perfeitos

Gustavo Zucchi, O Estado de S. Paulo

24 Novembro 2015 | 21h34

Desde o início da década de 2000, os recordes da natação têm caído progressivamente. Por exemplo, na prova dos 50m livre, passou dos 21s64, conquistado pelo russo Alexander Popov, até os 20s91 do brasileiro César Cielo. Nos 100 metros livre, desde a década de 1960, quando Manuel dos Santos fez 53s6, chegamos aos 46s91 de Cielo, conquistados em 2009. Nesse caminho, o que mudou foi a utilização da tecnologia por esses nadadores de ponta. Os super trajes, banidos em 2010 das competições, ajudaram a jogar para baixo parte dessas marcas históricas, mas, sem os maiôs, outras formas de superar as limitações humanas estão sendo utilizadas.

Essa nova mentalidade já vem sendo usada no Brasil há algum tempo, em especial desde os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. Isso tem dado aos atletas olímpicos do País não apenas a chance de competir de igual para igual com os melhores do mundo, mas a oportunidade de conseguir treinos específicos, pensados tanto para enaltecer suas qualidades físicas quando corrigir defeitos debaixo d`água. Não seria demais afirmar que esses treinadores fisgam diamantes brutos no esporte e os transformam, cada vez mais, em grandes competidores, em joias raras.

Para tanto, foram necessários duas vertentes: a primeira foi uma mudança da forma de encarar o próprio atleta: "Antigamente, o atleta só nadava. A parte técnica era desenvolvida e o técnico dava aquela lapidada e cuidava da preparação física. Mas você não tinha complemento nutricional, ajuda psicológica, esse controle da biomecânica. E chegou um momento, especialmente aqui dentro do Pinheiros, em que unimos todas essas áreas em prol do competidor", explica o técnico de natação do Esporte Clube Pinheiros,  Andre Amendoim (o Amém).

Hoje, comandando aproximadamente 10 atletas, Amém tem à sua disposição dados colhidos pelos analistas do Centro Integrado de Apoio ao Atleta (CIAA). Com isso, ele consegue entender as especificações de cada nadador, de modo a planejar como corrigir e melhorar o tempo de cada um, com treinamentos específicos. "Foi visto que o Guilherme Guido não conseguia fazer a volta igual ao resto do mundo que estava no topo. E esse foi o foco que colocamos depois dessa análise. A passagem dele é uma das mais fortes do mundo, mas a volta não. Aí, começamos a focar um trabalho direcionado nessa volta", explica o treinador sobre um dos principais nadadores do Brasil. "O programa ficou mais individualizado. Ele era mais focado no grupo, era daquele jeito e o grupo todo ia fazer daquele jeito. Hoje é mais separado, específico. E isso foi graças à tecnologia", diz o próprio Guilherme Guido. Especialista nos 100m costas, ele conseguiu, com a nova mentalidade de treinamento aliada a tecnologia, atingir a marca que fez seis anos atrás com auxílio do super traje, que não usa mais.

"Eu acho que o ser humano não evoluiu. De 1970 até 2015 é o mesmo. Você não tem uma evolução como a gente teve do macaco para cá. E a partir do momento em que você vai aprimorando essas tecnologias usadas, o jeito de deixar o atleta em sua melhor performance, essa evolução vai acontecendo. Essa fase vai propiciar a evolução do nadador no esporte", afirma Amém. Ainda segundo o treinador do Pinheiros, há uma barreira de desempenho que em breve será atingida. "Você não vai ver ninguém se não nadar os 50m em 15 segundos". Mas ainda há espaço para evolução, além do que nomes como Guilherme Guido conseguirão fazer. "Na minha época, a gente não tinha nada disso. O pessoal que está vindo hoje está pegando tudo mastigado. Isso vai ajudar a baixar os tempos".

TECNOLOGIA

Todos os dados que posteriormente são oferecidos para o treinador são captados na piscina por um biomecânico. Com auxílio de câmeras e equipamentos como o Zephyr e o Aquanex, dados que antes seriam impossíveis de obter são captados e transformados em informações de competição. "A gente precisa entender o que acontece em nível metabólico durante uma prova. Eu preciso entender efetivamente o que acontece na água, e entender o individuo dentro da água, meu atleta e os adversários", explica o educador físico do Esporte Clube Pinheiros, Gustavo Drago. O trabalho dos analistas comandados por Drago é checar principalmente dois aspectos: os condicionantes, associados à força e resistência e os associados à carga de treinamento

Para tanto, os equipamentos e softwares disponíveis no clube paulista buscam dados sobre testes de desempenho motor, controle de carga fisiológica e mecânica, análise cinemática e análise de jogo. Quem sempre pensou que era só cair   água e bater os braços, se enganou. Pode até ser que muito nos primórdios dos Jogos Olímpicos, esse fosse o espírito. Há tempos não é mais. 

Além do Zephyr, que são acelerômetros colocados estrategicamente no corpo do atleta, e do Aquanex, que permite através de imagens e sensores mensurar as forças no próprio tiro da prova, há também softwares específicos para análises de movimentos, como o Dartfish e Kinovea, que permitem a checagem de variáveis temporais e angulares quadro a quadro de uma prova. Com os dados obtidos é possível comparar o desempenho com bases em outros atletas e calcular o que falta para o movimento ser o mais perfeito possível. 

COMO FUNCIONA

Aquanex: software de correção de nado desenvolvido por uma empresa americana. É considerado uma das principais inovações tecnológicas para o esporte aquático. Por meio de câmeras, posicionadas dentro e fora da piscina, e sensores no corpo do atleta, os técnicos conseguem corrigir o posicionamento em diversos momentos da prova. 

Zephyr: monitor de frequência cardíaco acoplado a acelerômetros. Permite que técnicos e analistas percebam em tempo real as diversas forças envolvidas nos movimentos de diversos esportes, entre eles a nadação. 

Dartfish e Kinovea: softwares de imagens que permitem a reprodução quadro a quadro do movimento de esportistas. 

Reflotron: analisador bioquímico. Utilizado para analisar o sangue dos atletas. 

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