Tem samba para gringo?

Na ótima reportagem de ontem neste caderno (Brasil investe em sul-americanos 'bons e baratos') o repórter Fábio Hecico nota que o futebol brasileiro passou a ter um novo sotaque, o castelhano. Justo. Se "importações" de pé de obra dos vizinhos não chega a constituir novidade, nunca antes na história deste País eles vieram em tão grande número. O colega Hecico, o Fabião, contou nada menos de 44 estrangeiros na Primeira Divisão. A maioria composta de uruguaios, paraguaios e argentinos. Mas há até um norte-americano, Freddy Adu, batendo bola entre nós. E dois europeus, o espanhol Fran Mérida e o holandês Clarence Seedorf.

LUIZ ZANIN, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2013 | 02h08

Estaria o Brasil a caminho de se transformar uma multinacional do futebol, como as nações europeias? Ainda não é para já, é o que se pode dizer. Embora esses números sejam inéditos, não se comparam às proporções europeias que, em algumas equipes chegam à fronteira da quase completa desnacionalização.

A migração dos gringos para o Brasil é fácil de entender. Tão fácil quanto a exportação maciça das jovens promessas brasileiras para o exterior. São as forças da economia de mercado. O Brasil não tem estrutura (nem vontade) de manter seus craques. O mesmo acontece com os países vizinhos. Quando os jogadores sul-americanos não conseguem mercado na Europa, procuram-no no vizinho gigante e de economia forte, apesar dos tropeços. Ganham aqui bem mais do que em seus países de origem. Criou-se, dessa forma, uma corrente migratória em direção ao Brasil. Assim como se criou corrente semelhante do Brasil em direção à Europa, Rússia, ex-repúblicas soviéticas e o assim chamado "mundo árabe". Na cadeia alimentar do capitalismo da bola, o peixe grande come o peixe intermediário, e o peixe mediano devora o peixe pequeno. O dinheiro comanda a direção desses fluxos, bem como sua frequência e intensidade.

A presença de nossos vizinhos por aqui já tem história. Todos temos gringos queridos em nossos clubes de coração. Os de hoje atendem pelos nomes de Guerrero, Valdivia, Montillo, D'Alessandro e tantos outros. No passado, foram Cejas e Rodolfo Rodrigues, Pablo Forlán (pai do atual Diego Forlán, do Internacional), Dario Pereyra, Doval e tantos outros.

Mas a presença hispânica hoje é tão intensa que alguns clubes, como o Grêmio, já pedem para que a cota de três na escalação de um time possa ser ampliada. Qual a razão dessa limitação a três do número de estrangeiros escalados por time? Só posso ver duas motivações: reserva de mercado para os jogadores brasileiros e temor da descaracterização do nosso estilo de jogo. Será que se justificam? A tal reserva de mercado teria por fim, talvez, proteger o investimento dos clubes nas categorias de base. Desestimulados pela importação fácil, talvez os clubes deixassem de dar importância ao craque feito em casa. Mas será mesmo? Hoje em dia o que fazem as categorias de base senão criar talentos para serem rapidamente vendidos ao exterior? Desse modo, a presença de mais estrangeiros em nada afetaria a existência dessas incubadeiras de craques para desfrute europeu.

A outra razão parece mais consistente. Em tese, um número excessivo de estrangeiros pode, com sua maneira diferente de jogar, desfigurar um estilo já consagrado. Vimos o que aconteceu com o futebol europeu. Há duas décadas, sabia-se como jogava um time inglês, um alemão e um espanhol. Hoje, escolas nacionais estão em vias de diluição. Os estilos dependem muito mais da filosofia de um treinador ou da característica de um atleta que da tradição do país. Seria bom preservar esses estilos, como se fossem espécies ameaçadas de extinção? Eis a dúvida. Teríamos um estilo brasileiro a manter ou ele já foi para o brejo, junto com outros fatores de identidade tornados obsoletos pela globalização? Teríamos ainda um samba puro a ser ameaçado pela presença maciça de gringos?

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