Templo de reflexão

Os ingleses costumam referir-se a Wembley como seu templo sagrado do futebol. A reverência de décadas não mudou, mesmo após a reconstrução recente que o transformou em outro estádio. O desenho é moderno, mas permaneceu a aura antiga de local especial. O nosso santuário esportivo é o Pacaembu, que em breve pode esvaziar-se, pois o desprezaram para a Copa-14. Azar dela e de quem não tem sensibilidade.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

O setentão Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho bem poderia servir, na tarde deste domingo, de inspiração para um momento de reflexão para Palmeiras e São Paulo. Os dois times entram no gramado para um clássico que pode estimular sonhos ou enterrar de vez qualquer pretensão de ainda desempenharem papel relevante no campeonato. Em português simples, os velhos rivais estão na base do ou vai ou racha.

Por enquanto, estão mais para o segundo caminho, porque o ano anda desastrado para ambos. Repare: exceto por um ou outro episódio entusiasmante, têm sido motivos de dor de cabeça e gozação para suas torcidas. O Palestra empolgou, mesmo, só nos 4 a 3 sobre o Santos, na Vila Belmiro, pelo Paulista (aquele jogo da dancinha estabanada do Armero) e nos 3 a 0 pra cima do Vitória, no Pacaembu, pela Sul-Americana (com o gol de falta salvador do Marcos Assunção em cima da hora). O Tricolor animou seus fãs no duplo 2 a 0 diante do Cruzeiro, em maio, pela Libertadores, antes da pausa para o Mundial. Pouco para clubes com história tão rica.

Os dois sofrem de crise de identidade. O Palmeiras começou a temporada com Muricy Ramalho sendo olhado de esguelha, por ter deixado escapar o título do ano passado, que parecia molezinha e virou fumaça. O treinador foi mandado embora depois de surra em casa para o São Caetano, que no dia seguinte cedeu Antônio Carlos como substituto. O ex-zagueiro do próprio Palmeiras mal esquentou banco e, após bom início, com vitória sobre o São Paulo, também teve de pegar o boné, como aconteceu com o centroavante Robert e o meia Diego Souza, outros que caíram em desgraça. Veio Felipão e o time patina, não vai nem pra lá nem pra cá. Pra aporrinhar mais, as obras do novo Parque Antártica emperraram na prefeitura.

A vida do São Paulo não é melhor - de certa forma, é até pior, porque o palmeirense está com o couro curtido de tanta lambada que leva. Os são-paulinos não, pois passaram muito tempo bem-acostumados com conquistas e só agora desembarcaram no mundo dos normais sofredores. E bota sofrimento, porque a equipe foi figurante no Paulista, na Libertadores e agora faz água na Série A. O São Paulo, em 22 jogos, sofreu 8 derrotas, contra 9 nas 38 rodadas do ano passado, 5 em 2008, 7 em 2007 e 4 em 2006.

A diretoria vacila e, de tempos pra cá, dá sinais de esgotamento. Demorou para optar pela saída de Ricardo Gomes e ficou perdidinha para escolher o sucessor. Optou pelo Sergio Baresi e não tem pudor de apresentá-lo como interino até o fim do ano - ou o fim da picada. Pra ferir mais o orgulho dos tricampeões do mundo, a CBF lhes aplicou uma rasteira internacional ao tirar o Morumbi da Copa e ao repassar ao Corinthians a primazia de ter sua futura casa como sede da festança.

Dureza, sem dúvida, mas o São Paulo tem como sacudir a poeira. Antes de mais nada, precisa descer do pedestal em que se colocou, arquivar por um tempo a conversa de "clube diferente" e iniciar desde já planejamento sério para 2011. O pontapé inicial é a busca de um técnico à sua altura. Já o Palmeiras tem de colocar finanças e oposição sob controle. Sem grana e com cornetas à solta, a vida no Palestra seguirá um inferno.

Que as tribunas venerandas do Pacaembu inspirem a cartolagem verde e a tricolor a encontrar saídas inteligentes para a fase incômoda. E que, na relva sagrada, Marcos Assunção, Ewerthon, Valdívia, Rogério Ceni, Fernandão, Lukas (ex-Marcelinho) deem bola dentro. São Paulo e Palmeiras têm vocação para protagonistas e não para desempenhar papéis secundários, que é coisa muito chata.

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