Tempo de demolir

Calendário mal ajambrado tem dessas ironias. A bola rola solta por aqui, a virada de turno no Brasileiro está na esquina, os clubes rezam para todos os santos para que seus rapazes regressem com urgência. No entanto, os desfalques continuam, porque hoje, horas antes da 17.ª rodada A, a seleção entrará em campo, em Estocolmo, para cumprir outra etapa de sua intensa agenda comercial.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2012 | 03h02

Quatro dias depois do atropelamento que sofreu do México, na final do torneio olímpico em Wembley, enfrenta a Suécia no jogo que marcará o desaparecimento do Rasunda, estádio em que conquistou o primeiro de seus cinco títulos mundiais. Um templo do futebol vai virar condomínio residencial, comercial ou sei lá mais o quê. Quer dizer, foi engolido pela força da grana, que não tem espaço para sentimentalismos.

Em circunstâncias normais, a partida seria um despautério. Os atletas que atuam fora do país pularam as férias, por causa da aventura londrina, e na sequência nem poderão espairecer, pois a temporada 2012-13 na Europa já deu a largada e terão de reapresentar-se às respectivas bases. Os que continuam em casa precisam encarar ritmo intenso e recuperar terreno. O Neymar, por exemplo, disputou apenas três dos 16 jogos do Santos no campeonato. É ou não uma coisa sem cabimento? O jogador mais valioso do elenco fica muito à disposição da seleção, enquanto o time patina na parte de baixo da classificação.

O disparate se torna mais acentuado porque a maior parte da turma teve período desgastante provocado pela Olimpíada. O gênio da CBF que topou o convite dos suecos não levou em conta esse detalhe. E não me refiro à cabeça quente por causa da perda da medalha de ouro. Isso só aumenta a pressão sobre o grupo. Se o Brasil tivesse subido no alto do pódio, os jogadores estariam relaxados e com atenção voltada para a festa da conquista, por recepção calorosa. Ou seja, de um modo ou de outro é compromisso inoportuno e que embute riscos.

Quem pode sair chamuscado é Mano Menezes. A trégua concedida para ele por torcida e crítica - que registrei na crônica de quarta passada - finou no sábado. Peralta e seus mariachis trataram de colocar o treinador de novo no meio da tempestade. A cartolagem pode apregoar em público que vai tudo bem, que Londres é página virada, que a confiança persiste e o palavrório de praxe. No fundo, há desconfiança - e Mano tem consciência disso; não é novato nem tolo. Se a equipe tomar uma tunda num local carregado de simbolismo, o fogo aumenta.

Escrevi nas colunas olímpicas, e o mestre Luiz Zanin tocou no tema na edição de ontem, que o preocupante não foi a derrota na decisão do ouro. Medalha de prata também tem valor, e como. O enrosco é constatar que, em dois anos de trabalho, e a dois da Copa, Mano não tem um time. Ou, para ser ainda mais angustiante, o esboço do que pode ser a seleção em 2014 não é nem um pouco animador.

É possível alegar que há tempo até o Mundial e que assim foi historicamente. Meia verdade. Equipes vencedoras em 70, 94, 2002 tiveram definição em cima da hora. Por que seria diferente agora? Porque, em 1970, havia Pelé, Tostão, Rivellino, Gerson, Clodoaldo, Carlos Alberto. Em 94, estavam lá Romário, Mazinho, Bebeto. Em 2002, Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho. E hoje? Oscar, Neymar, Leandro Damião? São promessas, impossível prever como reagirão.

Na prática, o tempo passou a jogar contra o Mano. E, se não aprumar logo a seleção, a onda de demolição não atingirá apenas o estádio Rasunda.

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