Sergio Neves/AE
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'Tenho pena de quem assumir o Palmeiras'

SALVADOR HUGO PALAIA, Conselheiro e candidato à presidência do clube

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2010 | 00h00

Apesar de ter sido eleito primeiro vice-presidente da chapa de Luiz Gonzaga Belluzzo, Salvador Hugo Palaia se diz surpreso com o que presenciou na administração do Palmeiras durante os dois meses em que esteve à frente do clube. Nesse período, ele substituiu Belluzzo, que se licenciou para cuidar da saúde. "Vi muita coisa errada. O dinheiro foi mal investido. Tenho pena de quem assumir o Palmeiras", afirmou o polêmico conselheiro durante entrevista ao Estado. Mas não é esquisito que um candidato à presidência fale isso? "Talvez, mas estou disposto a essa dose de sacrifício pelo clube. Quem sabe pode ser a última oportunidade da minha vida de ajudar", observou. Na eleição, que será realizada na primeira quinzena de janeiro, Palaia terá como adversários os empresários Paulo Nobre, que divide com ele alguns votos da situação, e Arnaldo Tirone, candidato da oposição que conta com o apoio do grupo de conselheiros ligados ao ex-presidente Mustafá Contursi.

O senhor está seguro quanto ao apoio do presidente Belluzzo?

Muito seguro. Trata-se de um acordo. Em eleições passadas eu abri mão da candidatura para apoiá-lo. E abriria mão novamente agora, embora essa talvez seja a última oportunidade que tenho para prestar esse serviço ao Palmeiras. Pelo homem que ele é, o Belluzzo jamais faltaria com a palavra.

A situação é representada por dois candidatos: o senhor e Paulo Nobre. Quem ganha com isso não é a oposição?

Primeiro eu gostaria de saber quem é Paulo Nobre. Qual a história dele no Palmeiras? E agora ele vem dizer que era eu que deveria apoiá-lo nesse processo. Não dá.

O senhor considerou a atitude dele pretensiosa?

Uma atitude pretensiosa de quem não tem serviços prestados ao clube. Aí você vai dizer "Palaia, você acabou de rachar". Na verdade, só estou alertando os conselheiros do Palmeiras sobre o risco de colocar na presidência alguém que não tem vivência no clube, que não tenha, desculpe a falta de modéstia, um currículo como o meu.

O senhor se sente traído?

Fui traído. Por exemplo, quando o Della Monica era candidato à reeleição, era exigido, por um grupo de conselheiros, a minha saída do futebol em troca de votos. Ele (Della Monica) foi eleito, com o meu apoio inclusive, e colocou esses homens que deram esse rombo nos cofres do Palmeiras. Talvez não tenha sido uma traição intencional, pois era um jogo político para ele se reeleger. Nesse momento, eu esperava o apoio do Della Monica, mas ele está dando o apoio ao Tirone, aliás, por quem tenho admiração, tanto por ele quanto pelo pai Arnaldo Tirone. Nesse caso, eu acompanhei. Ele (Tirone, candidato) é palmeirense desde pequeno. Não é um corredor de kart ou bicicleta.

O senhor demonstra mais carinho por seu opositor do que por quem poderia ser seu aliado.

Receberia com gosto um apoio do Paulo Nobre, mas sem oferecer cargo. Porque ele foi deselegante comigo. Antes de ele lançar a candidatura, eu o convidei para almoçar. Ofereci para ele a diretoria de futebol. Ele disse que consultaria o grupo dele, de 18 conselheiros. Ele seria elegante se marcasse um novo almoço para dizer que não aceitaria e sairia candidato.

Então a oposição comemora esse cenário?

Olha, é claro que 18 votos podem definir uma eleição. Mas faço isso pelo Palmeiras.

Como foram esses dois meses na presidência?

Muito complicados. Nos meus quatro anos como vice não tive acesso a nada. Ficava sabendo das coisas por meio de jornal.

Mas não é estranho que um vice-presidente só saiba das coisas pela imprensa?

Claro. Por isso montei o Conselho Gestor. Coisa que o Belluzzo deveria ter feito e não fez.

O Palmeiras teve os três técnicos mais badalados do País (Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho e Felipão) e nada conseguiu. Onde está o problema?

Está nas más contratações, na má gestão dos recursos. Eu não contrataria 80% dos jogadores que foram contratados nesse período.

O Felipão pode ficar tranquilo caso o senhor seja eleito?

Tranquilo. O Felipão é o nosso técnico. Só que não podemos cobrar uma laranjada dele se ele só tem limões.

O que o senhor pensa da parceria com a Traffic, que começou forte e perdeu a importância?

Tem de mudar o estilo. O Palmeiras só deve participar da divisão do lucro, e não da contratação. O clube é a vitrine. O jogador tem de chegar a custo zero. Depois da venda, o Palmeiras fica com um porcentual.

Qual cenário imagina encontrar se vencer a eleição?

Olha, eu tenho pena de quem assumir o Palmeiras. Mas não culpo o Belluzzo. Ele foi o presidente que mais trouxe recursos para o clube, mas administrou mal. Só que não abro mão do auxílio do Belluzzo.

Mas o senhor quer ser presidente mesmo assim...

Estou disposto a essa dose de sacrifício pelo clube. Quem sabe pode ser a última oportunidade da minha vida de ajudar o Palmeiras. A maçonaria me ensinou uma coisa: somos eternos aprendizes. E eu adoro enfrentar desafios. E a presidência do Palmeiras se transformou em um desafio.

E como vai conduzir a questão da Arena Palestra?

Espero estar na inauguração da Arena em 2013, com a partida entre Palmeiras e Inter de Milão. Está tudo bem encaminhado. Falta um acerto no seguro, para que o clube seja o beneficiário, e não o Banco do Brasil.

O senhor trabalharia com o Mustafá?

Tenho respeito por ele, o considero uma pessoa inteligente, bom negociador. Mas falta um pouco de açúcar em seu coração. Ele não sabe perdoar.

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