Tensão da decisão desgasta mais do que a correria

Especialistas argumentam que o grande problema não está em jogar duas vezes por semana, mas em disputar sequência de partidas decisivas

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2011 | 00h00

Afinal de contas, o fato de disputar duas competições ao mesmo tempo fará com que o Santos entre em desvantagem contra o Corinthians na final do Campeonato Paulista, hoje, às 16 horas, na Vila Belmiro? Para jogadores, dirigentes e integrantes da comissão técnica santista, a resposta é sim. E a explicação parece simples: o grupo tem sido obrigado a jogar duas vezes por semana por causa da Taça Libertadores - em alguns casos com jogos separados por longas viagens -, enquanto os corintianos se concentram apenas no Estadual. Porém, de acordo com alguns especialistas em preparação física e fisiologia, a situação não é bem assim.

Esses profissionais destacam que o organismo de um atleta de alto rendimento, que conta com boa estrutura de preparação e treinamento, está capacitado a resistir bem à sequência de dois jogos semanais. E apontam o exemplo do mercado europeu, onde os principais clubes do mundo entram em campo com essa frequência.

A essência do problema, destacam eles, é emocional. "O desgaste não está em jogar no meio e no fim de semana. Até aí, tudo normal. O problema está no fato de disputar finais nas duas competições ao mesmo tempo, de ter de manter o alto rendimento durante um longo período", explicou o professor-doutor em fisiologia do Centro de Medicina e Atividade Física e do Esporte da Unifesp, Raul Santo de Oliveira. "Em uma situação dessas, o jogador não relaxa um minuto sequer. E essa tensão, sim, provoca desgaste que pode afetar até o desempenho físico."

Oliveira recomenda cuidado maior por parte dos clubes com o trabalho psicológico. "Nas viagens, não adianta providenciar apenas voos e hotéis confortáveis. O que causa o cansaço, nesses casos, é a distância das referências, como a família, os amigos", observou. "Até mesmo quando estamos de férias e viajamos para descansar, chega uma hora que você está cansado e quer voltar para casa. Por isso é importante investir na contratação de psicólogos."

Chororô. Apesar do desgaste real dos atletas, os especialistas lembram que existe muita choradeira sem sentido. "Se técnicos e dirigentes tratassem desse assunto com mais conhecimento e argumentações técnicas, a opinião pública levaria mais a sério. Só que muitos usam esse discurso apenas para justificar uma eventual infelicidade no campo", afirmou o professor e preparador físico Bruno Mantovani.

Enquanto alguns boleiros argumentam que as distâncias percorridas pelos jogadores hoje em dia pode ser quatro vezes maior do que há 30 anos (pode chegar a até 12 quilômetros em uma partida), Mantovani lembra: "A estrutura de preparação, alimentação, suplementos também evoluiu muito. Chega a ser incomparável".

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