Teorias do mal

O futebol não é modelo de transparência. Ok, Uma constatação que fiz há muito tempo - e, imagino, você também. Basta ver as denúncias que correm, pelo mundo, de negociações nebulosas, de investidores obscuros, de famiglias que controlam jogadores, clubes, associações. O esporte mais popular do planeta é ainda uma imensa caixa preta.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2011 | 00h00

Apesar de tudo, não me incluo no bloco dos que veem conspiração e mutreta em tudo, de um impedimento equivocado a um pênalti mal marcado, de um gol erroneamente anulado a uma expulsão exagerada. As falhas sempre fizeram parte de atividades humanas e não significam necessariamente manifestação de má fé, desejo de prejudicar algum concorrente em favor de vantagens inconfessáveis. Os árbitros não são bandos de larápios, nem todos os cartolas são venais, nem todas as competições se desenvolvem com cartas marcadas.

Ceticismo é atitude profilática em nossos tempos, não custa nada cultivá-lo. Mas na medida certa, para que não se transforme em paranoia, para que não distorça resultados e não veja em qualquer imprevisto mais uma manifestação de fraude. Duvidar não é pecado, mas vislumbrar maldade generalizada só corrói em vez de engrandecer.

Repare como se torna cada vez mais frequente detectar maracutaia alheia nas derrotas em vez de escarafunchar erros próprios. José Mourinho, brilhante treinador do Real Madrid, preferiu disparar contra juízes, rivais e até a Uefa para justificar os 2 a 0 para o Barcelona, em casa, pela Copa dos Campeões. Ele disse que chega a sentir asco do futebol, que lhe rende fama e fortuna, e pouco analisou o desempenho de seu time.

Mourinho apelou para a teoria da conspiração, ao referir-se à expulsão de Pepe, um brucutu acostumado a descer o sarrafo. Porém, o bravo português se esqueceu de admitir que o Real foi medroso, retraído, pouco eficiente. Mais fácil levantar suspeitas do que enxergar a ferida no próprio umbigo. E reação de fariseu, como se dizia no Bom Retiro, ao falar de "nojo" do meio em que vive. Se é assim, por que não se empenha em modificá-lo? Ou, se se sentir impotente, por que não batalhar em outra atividade? Ora...

Nas quartas de final do Paulista, não faltaram críticas a suposto favorecimento para Santos, São Paulo, Corinthians e Palmeiras. O quarteto não passou para as semifinais por méritos, apenas. Houve "esquema" para garantir o sucesso. Exemplo indesmentível? A benevolência com Danilo e o rigor com Xuxa. O zagueiro palmeirense deveria ter levado vermelho e não o atleta do Mirassol. Esse detalhe teria sido determinante para o destino do jogo. Pode ser, e acho que o juiz errou. Daí a detectar arranjo vai um espaço razoável. Se todos os equívocos dos apitadores fossem sintomas de leviandade, nenhum campeonato chegaria ao fim. Parariam nos tribunais.

Na semana passada, li que o Fluminense foi ajudado contra o Argentinos Juniors, porque a Conmebol queria todos os brasileiros na segunda fase da Libertadores. No domingo, o mesmo Flu teria sido prejudicado contra o Flamengo, na Taça Rio, por algum motivo torpe.

Você lembra que o Brasil "vendeu" para a França a Copa de 1998? O Palmeiras ganhou muito, nos anos 1990, por causa do esquema Parmalat? O Corinthians teve o Brasileiro de 2005 arranjado com o escândalo do apito? E por aí vai. Nessa toada, todo clube teve uma conquista suja ou já foi prejudicado por orquestrações espúrias. O caos. Curioso que muitos chiam e ninguém vai fundo nas acusações. Denuncismo, muitas vezes, é mais fácil do que assumir imperfeições. E será que não há vitórias limpas no futebol e derrotas merecidas?

Bom senso. Sem cair na conversa mole de favorecimentos, foi levantada uma polêmica em torno do dérbi de domingo que vale a pena considerar. O Palmeiras reclamou com a FPF porque Paulo Cesar de Oliveira vai apitar o jogo com o Corinthians. Nada contra o árbitro, experiente e honrado. Mas, antes do sorteio realizado na quarta-feira, já se sabia que ele seria o indicado. E como? Por matéria publicada no Jornal da Tarde do mesmo dia, que adiantava essa indicação.

A FPF alega coincidência. Tudo bem, não vamos duvidar. Para não correr riscos, porém, o mais sensato seria tirá-lo do clássico e preservá-lo. Se errar para um dos lados, o que é comum para qualquer juiz, será malhado. Paulo César não merece isso.

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