Felipe Rau/AE - 30/4/2011
Felipe Rau/AE - 30/4/2011

Tesouro verde pega poeira à espera da nova casa

Troféus e relíquias acumulados em 96 anos saem da Turiaçu por causa das obras da Arena Palestra

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2011 | 00h00

SÃO PAULO - O Palmeiras copia Steven Spielberg? Sim, mas sem querer. A primeira imagem que vem à mente, assim que se entra no depósito em que estão guardados 96 anos de troféus e história palestrinos, é a da cena final de Os Caçadores da Arca Perdida, episódio inicial da tetralogia Indiana Jones, série de filmes que deu fama e fortuna a Harrison Ford. Aguça curiosidade e imaginação.

O local vive na penumbra, pela luz fraca interna e pelos vidros da fachada carregados no insulfilm. Num espaço de mais de mil metros quadrados estão empilhadas caixas e caixas iguais, lacradas, numeradas, distribuídas por plataformas de madeira divididas em longas filas. Impossível distinguir que taças conservam, daquelas conquistadas no arco e flecha à preciosa lembrança da Libertadores de 1999, de proezas em torneios de boccia à Taça Rio, relíquia do Mundial de Clubes de 1951. Tudo igual...

Desde 8 de agosto o tesouro palmeirense saiu da sede da Turiaçu para concentrar-se em quatro andares (mais um terraço) de um prédio de 1982, numa agitada rua de Pinheiros. O armazém está encaixotado entre um terreno baldio, uma loja de móveis, um salão de beleza com manobrista à porta, um bar, um restaurante que serve feijoada aos sábados, uma banca de jornais. Um arranha-céu, de arquitetura medonha e em fase de acabamento, tem como vista os fundos do "mausoléu".

Quem passa por lá não tem a mínima ideia da função atual daquele imóvel esquisito, que lembra também a caixa-forte do Tio Patinhas. Moradores mais antigos se recordam que ali já foi boate e showroom de marca de famoso material esportivo.

Por quatro anos, ficou com as portas fechadas, pois em 2006 o inquilino anterior entregou as chaves e foi para outra freguesia. O Palmeiras paga em torno de R$ 23 mil por mês (mais taxas complementares, que pode elevar o total a 30 mil), contrato assinado na gestão Luiz Gonzaga Belluzzo, com validade de três anos.

A movimentação no depósito é discretíssima - e não poderia ser diferente, para não chamar a atenção. Três vezes ao dia, o portão lateral abre-se, para a entrada de dois homens e a saída de outros tantos. É o ritual da troca de guarda, feita a cada oito horas. Funcionários do Palmeiras há nove meses se revezam na função de zelar pelas provas de metal de que o clube foi um grande colecionador de prêmios. O acervo, na última década, praticamente ficou estagnado. A ele se juntou só o troféu do Paulista de 2008...

A clausura só não é total porque o dono do prédio, herdeiro de dezenas de propriedades idênticas, aparece por lá com regularidade insistente. Uma hora leva eletricista para fazer reparos na rede elétrica. Depois, vem com encanador a tiracolo para conferir se há vazamentos. Quando lhe dá na telha, traz pedreiros para ajustar rachaduras. Agora, tem pronto fosso para colocar elevador.

O buracão para botar o atlas está aberto, livre, sem proteção. Se alguém descuidar e perder o equilíbrio, se estatela no fundo. O pessoal do Palmeiras reza para que o bichão seja instalado antes da retirada do material. Foi um trabalho danado subir as escadas com toneladas de história e patrimônio alviverdes nos ombros. Dezenas de viagens de caminhão, na maioria das vezes feitas à noite. Sabe como é... poderiam crescer os olhos de gente que não tem o que fazer.

Calmaria. Apesar das constantes intervenções do locador, que inverte a lógica do negócio e faz reformas com o locatário dentro, não houve incidentes até agora. Eletricistas, encanadores, técnicos são discretos e pouco perguntam. Nenhum susto, zero de sobressalto, exceto por ruídos feitos por ratos que ultimamente andam farejando as caixas de papelão uma fonte de alimentação. Estuda-se espalhar ratoeiras.

Imóvel e entorno são monitorados por câmeras. No início, eram 14, no ar 24 horas por dia. Desgasta uma aqui, queima outra ali, restam 4. Ainda assim, permitem bom controle. Como reforço, no fundo do prédio, numa casa anexa, há um pastor alemão bravo como o capeta. Antes, circulava pelos andares, a rastrear o território. Como andou a rosnar feio para seus humanos companheiros de trabalho, optou-se por deixá-lo confinado. Só se dá bem com um dos seguranças, que estica a jornada para prover comida e água suficientes para o dia.

O cachorrão foi motivo de discórdia entre atual e antiga diretorias. Num momento, se falou que o animal custava R$ 3 mil por mês, entre aluguel e ração. Depois, se afirmou que seria do clube e a despesa ficaria em torno de R$ 600. Até um tempo atrás, um adestrador levava o totó passear, a R$ 35 por dia. O Palmeiras ficou duas semanas sem pagar o tratador, que sumiu do mapa. Não se faz a higiene do terreno nos fundos.

Limpeza não é propriamente característica da fortaleza palestrina. Nas escadas que levam de um andar para outro, jazem algumas carcaças de baratas e insetos similares. A turma da faxina deu o ar da graça só uma vez, depois de insistência dos guardiães do tesouro. Uma Kombi parou lá, a tropa de vassoura e esfregão caprichou na varredura, espanou o pó, foi embora para nunca mais voltar. Mesmo assim, foi mais assídua do que cartolas: nenhum baixou por lá.

Os sentinelas mantêm asseados os banheiros - espelhados e cafonas, dos tempos de rendez-vous - e a modesta cozinha, tudo no térreo. Os alimentos são mantidos em um freezer de coca-cola, desses comuns, que se encontram em bares e mercearias. Há, num dos cômodos, até um lugarzinho para repousar. O trabalho é monótono; o conforto, o que menos incomoda. Chato mesmo é ficar o dia todo vendo as pessoas na rua, pelo vidro escuro, e aquele marasmo na masmorra.

Pó nas cadeiras. O tédio acumula-se como o pó. Camadas mais espessas envolvem móveis e utensílios, pois não há só troféus guardados. No subsolo amontoam-se cadeiras de escritório (destino provável: lixo), armários (alguns eram usados pelo time profissional), poltronas de camarotes de luxo (lindas, com os símbolos do Palestra Itália e do Palmeiras entrelaçados).

Cadeiras e mesa de madeira de lei, entalhadas, finas, antigas, caras, testemunhas de reuniões que definiram episódios da história do clube estão no meio de material plebeu. Empoeiradas, escanteadas. Pedestais que ostentaram joias como o Ramon de Carranza estão num canto, à espera de retomar os dias de glória. Temporais já provocaram discretos alagamentos na parte mais baixa da pirâmide moderna.

O provisório predomina em tudo. Até no tempo de uso do prédio. A diretoria atual não afasta a possibilidade de tirar o acervo de lá, desde que ache local mais adequado e menos dispendioso. Há o cuidado, porém, de não mexer demais nas taças, sob risco de provocar danos. "A intenção é criar uma sala de troféus temporária no clube mesmo", afirma o presidente Arnaldo Tirone. "Estamos em busca de patrocínio para isso", emenda o dirigente, preocupado em conhecer detalhes sobre o armazém e suas condições.

Justiça seja feita: as taças estão bem embaladas, protegidas, o controle de conteúdo está no clube, em computadores. Nada se perderá. Não se sabe, no entanto, onde ficarão as copas na nova arena. Não há previsão de um memorial, ao estilo daqueles de Santos, Corinthians, São Paulo. Mas os dirigentes juram que essa riqueza não será relegada a segundo plano. "Teremos um espaço bom", avisa Tirone. "Cuidaremos disso."

Por enquanto, repousam nas caixas, à espera da luz, de polimento, de brilho. A tentação de achar as taças Libertadores e Rio é grande. Os olhos, inquietos, percorrem dezenas de caixas, nos três andares. Impossível encontrá-las.

De fato, não há como não lembrar da cena final do filme de Spielberg. Elas estão lá, mas onde?!

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