Nicholas D. Kristof *, O Estadao de S.Paulo

22 de agosto de 2008 | 00h00

Para pintar um rosto amistoso na imagem que exibiria durante a Olimpíada, o governo chinês reservou em Pequim três "zonas de protestos". As autoridades explicaram que, se os promotores conseguissem a respectiva permissão com antecedência, as manifestações seriam permitidas. Então, resolvi testar o sistema.Obedecendo às instruções oficiais, foi até um escritório do Departamento de Segurança Pública de Pequim, procurei o guichê 12 e declarei ao funcionário: "Procuro a autorização para fazer uma manifestação de protesto."O que eu não sabia era que o regime prendera pelo menos meia dúzia de pessoas que solicitaram a autorização. A polícia é muito esperta. Antigamente, as forças da ordem precisavam sair e pegar os manifestantes no ato. Agora, não precisam mais dar-se a este trabalho: Os eventuais manifestantes aparecem na própria delegacia para pedir autorização e ali mesmo são presos imediatamente. Isso é que é eficiência policial, sem qualquer custo! Felizmente, o funcionário do guichê 12 não me considerou um contra-revolucionário. Olhou para mim com ar preocupado e pediu meu passaporte e outros documentos de identificação. Ao descobrir que eu era jornalista, perguntou esperançoso: "O sr. pretende fazer uma entrevista sobre as manifestações?" "Não. Quero pedir permissão para fazer uma manifestação". Franziu a testa. "Contra o que o sr. quer se manifestar?" "Quero fazer uma manifestação em favor da preservação da arquitetura histórica de Pequim." Era o tema menos controvertido, mais sem graça em que eu pude pensar na hora. "O sr. acha que o governo não está fazendo um bom trabalho?", perguntou secamente. "Acho que se pode fazer melhor", disse delicadamente. O funcionário franziu ainda mais a testa e chamou dois colegas de escalão superior que, depois de uma série de telefonemas em tom agitado, levaram-me pelos meandros do edifício da polícia.Eu estava acompanhado por um cinegrafista do New York Times, e ele e um operador de vídeo da polícia ficaram gravando vídeos um do outro. Imediatamente os policiais explicaram que, segundo as normas, só eles poderiam gravar um vídeo com a gente, mas nós não poderíamos gravar um vídeo com eles.O prédio do Departamento de Segurança Pública (um nome fantasia para uma delegacia) brilha, como grande parte dos outros prédios de Pequim. É um edifício muito bonito, espaçoso, e a sala de espera para a qual fomos levados estava mobiliada com bom gosto; nada de cadeiras dobráveis de metal por lá. Uma bela metáfora do sistema judiciário chinês: O hardware (o arcabouço)é impecável, mas o software (o conteúdo) é primitivo. Depois de uma hora de espera, interrompida por exames periódicos e expressões preocupadas com nossas credenciais de imprensa, fomos introduzidos numa elegante sala de conferências. Eu fui convidado cerimoniosamente a sentar numa cadeira na qual estava escrito "candidato". Os três policiais sentaram na minha frente, e o cinegrafista da polícia continuou nos filmando de todos os ângulos. Os policiais foram muito cordiais e profissionais, embora eu tenha ficado com a impressão de que um deles parecia se imaginar arrancando minhas unhas. Ficaram uma hora explicando as inúmeras regras sobre a concessão de licenças para manifestações de protesto. Eram regras detalhadas e complexas, mais o mais alarmante era que eu deveria ter apresentado uma lista de cada pessoa que participaria da minha manifestação. A lista deveria incluir nomes e números dos documentos de identidade. Além disso, qualquer chinês incluído em uma lista teria de se apresentar pessoalmente à polícia para ser entrevistado (e talvez preso). "Se eu responder a tudo isto, será que pelo menos a minha licença será concedida?" perguntei. "Não sabemos", respondeu um policial. "Isto seria prejulgar o processo." "Mas já concederam alguma licença?" perguntei. "Não podemos responder a essa pergunta, porque não tem relação com esse caso." O policial afirmou que, se eles aprovassem, me dariam um documento permitido formalmente a realização da manifestação. Sem ele, minha manifestação seria ilegal. Então me rendi. As normas eram tão monstruosamente burocráticas que nem sequer eu poderia solicitar uma licença para uma manifestação. Meus sonhos olímpicos se frustraram. Os policiais pediram-me para assinar um comprovante da reunião e gentilmente nos despedimos. *Nicholas D. Kristof escreveu este artigo para ?The New York Times?

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.