Testemunha reforça versão do menor

Companheiro do garoto que garantiu ter disparado sinalizador revela novos detalhes da história e conta o drama que viveram na volta de Oruro

GONÇALO JUNIOR, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2013 | 02h08

Oito dias após o jogo entre San Jose e Corinthians, em Oruro, na Bolívia, o torcedor Pedro Alves (nome fictício) ainda choraminga e gagueja na hora de lembrar dos acontecimentos no Estádio Jesús Bermúdez. Pudera: ele estava lá, na arquibancada, dois degraus abaixo do menino que disparou o sinalizador que matou o torcedor Kevin Beltrán.

"Eu vi quando ele puxou a cordinha do sinalizador. Quando ele olhou para ver por que não tinha disparado, vupt! O sinalizador voou, passando perto de muita gente. Podia até ter acertado os corintianos", diz Pedro com a voz meio trêmula, em entrevista exclusiva ao Estado.

Pedro viajou ao lado do adolescente que confessou ter disparado o sinalizador. Na ida e na volta. A partir do disparo, os dois estiveram juntos em momentos que ainda tiram o fôlego do menino. Eles ficaram dentro do estádio até o final do jogo. Para eles, os gritos de "assassinos" dos bolivianos não significavam que alguém tinha morrido por causa do sinalizador. Os corintianos pensaram apenas em algum ferimento grave. Pedro conta que as prisões foram feitas de forma aleatória. A polícia escolhia quem tinha mochilas e ia levando. "A gente só começou a pensar que alguém tinha morrido quando o ônibus começou a ser apedrejado já na estrada".

No trajeto de Oruro para Santa Cruz, dois carros começaram a perseguir o ônibus corintiano. Emparelhavam e jogavam pedras e paus. O pânico tomou conta dos corintianos. Uns três, quatro minutos de agonia. O ônibus manteve o ritmo forte, os perseguidores desistiram e a viagem de 13 horas prosseguiu.

Com os nervos no lugar, os torcedores fizeram uma parada e descobriram a tragédia em uma lan house, dentro de um posto de gasolina. "O menino (que atirou o sinalizador) começou a chorar desesperado. Ele queria descer do ônibus e voltar para se entregar. Falava que não podia deixar os outros presos. Eu disse para ele se acalmar, mas não adiantou", conta Pedro.

Em muitos pontos, o relato de Pedro coincide com a confissão do adolescente feita à TV Globo. Convence a maneira como o menino fala: ainda emocionado, meio choroso e chocado com o que houve. Ele fala rápido, como é próprio dos adolescentes, mas não se atrapalha e suas frases têm começo, meio e fim.

Por outro lado, o relato apresenta pontos inconsistentes. Por exemplo: se ele estava dois degraus abaixo, por que olhou para cima antes do disparo? Outro ponto duvidoso: como os torcedores encontraram uma lan house aberta no interior da Bolívia no início da madrugada, depois do jogo?

O Ministério Público boliviano desqualificou a confissão feita no Brasil argumentando que ela pode ter sido feita sob pressão, para garantir a liberdade dos doze torcedores que continuam presos. Um dos detentos na Bolívia é Tadeu Macedo Andrade, um dos líderes da principal torcida corintiana.

Aconselhado pelos corintianos, que temiam um linchamento caso ele voltasse, o menino completou o percurso no ônibus. Sempre chorando. E chegou ao Brasil no sábado. No domingo, confessou o ato em entrevista à TV Globo e, na segunda, apresentou-se à Vara da Família de Guarulhos. Após ter sido reconhecido e hostilizado por vizinhos do bairro de periferia de Guarulhos onde morava, o jovem de 17 anos foi obrigado a se mudar para Itaquaquecetuba. Permanece anônimo e mora, agora, com os parentes na cidade da grande São Paulo.

Segunda viagem. A caravana para a Bolívia foi a segunda internacional do autor do disparo - a primeira havia sido na Libertadores de 2012, no jogo de ida da final, contra o Boca Juniors, em La Bombonera. Para a Argentina, ele não levou sinalizadores.

A aventura em Oruro custou R$ 200, valor que incluía o ônibus até o Mato Grosso, o trajeto de trem até Santa Cruz de la Sierra e, por fim, outro ônibus até o local da partida. "Foi a pior viagem da minha vida. Ainda me lembro de tudo", diz Pedro.

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