Sam Greenwood/AFP
Sam Greenwood/AFP

Depois de quase morrer em acidente de carro, Tiger Woods volta ao golfe ao lado do filho de 12 anos

Ele passou quase um mês no hospital e mais três deitados na cama. E, no entanto, lá estava ele, a magnífica e complicada estrela-guia da modalidade, agora saudável o suficiente para grunhir e fazer caretas nos 36 buracos do PNC Championship

Kurt Streeter, The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2021 | 20h00

Ver Tiger Woods e seu filho jogando golfe no fim de semana foi sentir um caleidoscópio de emoções. Caramba, foi incrível ver Tiger de volta. Foi só dez meses atrás que seu SUV caiu da estrada no subúrbio de Los Angeles. Ele quase morreu. Teve de ser arrancado dos destroços de metal. Seus ferimentos, como fraturas expostas na perna direita, eram tão graves que os médicos pensaram em amputação.

Ele passou quase um mês no hospital e mais três deitados na cama. E, no entanto, lá estava ele, a magnífica e complicada estrela-guia do golfe, agora saudável o suficiente para grunhir e fazer caretas nos 36 buracos do PNC Championship, um festival descontraído com grandes jogadores do golfe e seus familiares.

Para Tiger Woods, o evento significou jogar lado a lado com seu filho Charlie, de 12 anos, que depois de ser colocado no centro das atenções pelo segundo ano consecutivo neste torneio agora é bastante conhecido no mundo de golfe e além. Durante todo o fim de semana - sobretudo no domingo, quando a dupla disputou por um breve momento o topo da tabela de classificação - pai e filho inspiraram admiração e, ouso dizer, alguma ansiedade.

Ficamos de olho em Charlie, notando cada gesto com que ele espelhava seu pai. Cada trejeito, cada careta e sorriso e postura. Cada torção, cada tacada, cada giro confiante no taco. Ficamos de olho em Tiger, de volta dois anos depois de vencer seu 15º e último campeonato importante, o Masters de 2019.

Da velha forma bons ele ofereceu vislumbres suficientes para prenunciar algum dia um retorno ao golfe verdadeiramente competitivo e de alto nível. Mas Tiger Woods, 45 anos, está claramente afetado. Neste evento transmitido nacionalmente, cada lampejo de magia vinha com lembretes de que ele não é mais o mesmo.

Ele mancava perceptivelmente, apoiando-se mais na perna esquerda que na direita. Às vezes, fazia uma careta e gemia depois de dar uma tacada com mais força. Não conseguia esticar a perna direita da maneira que precisava. E nos últimos buracos do torneio, ele por vezes foi superado por Charlie.

Mas o fim de semana não tinha a ver só com o pai. Para os fãs, também tinha a ver com o filho. Por causa de quem Tiger é e da maneira como joga, há um fascínio por Charlie, que em dezembro do ano passado jogou este torneio como o competidor mais jovem de todos os tempos. Foi então que começou o encantamento. Os fãs não se cansavam de Charlie, o mini Tiger, então com 11 anos de idade e uma técnica cristalina - espelhando seu pai.

A competição deste ano ofereceu mais um espetáculo. Na televisão, os âncoras usavam vídeos em câmera lenta para analisar e bajular o backswing de Charlie, seu follow-through, sua virada de quadril. No início da semana, apareceram na internet fotos de Charlie acertando tacadas de treino no campo do Orlando Ritz-Carlton. Torcedores casuais que passaram a maior parte de três décadas adorando Tiger agora ficam maravilhados com seu filho de 12 anos.

O que isso pressagia para Charlie? Assisti-lo jogar bem na frente do mundo trouxe à mente uma história difícil: a conhecida história de Tiger Woods e seu pai, Earl Woods. O velho Woods infundiu ansiosamente seus sonhos na vida do filho, que cresceu diante de nossos olhos, fazendo sua estreia na televisão nacional aos 2 anos de idade, batendo umas bolas na frente de Bob Hope no “The Mike Douglas Show”.

Antes que a adolescência de Tiger terminasse, ele estava mergulhado na fama - e sobrecarregado de expectativas assustadoras. Tiger não seria apenas o maior jogador de golfe que já viveu, afirmou seu pai naqueles primeiros dias inebriantes, ele “faria mais do que qualquer outro homem na história para mudar o curso da humanidade”.

Seria uma surpresa que Tiger tenha crescido e se tornado um homem marcado por profundas feridas emocionais? Quando suas batalhas internas se espalharam publicamente, a situação foi a pior possível: escândalos sexuais, vício, divórcio, acusação de dirigir alcoolizado em 2017. Para muitos, ele é e sempre será um super-herói. Mas também é uma advertência.

No domingo, com o torneio em jogo, Charlie acertou duas tacadas perfeitas, incluindo um 5-iron no buraco 17 tão bem colocado quanto qualquer tacada de qualquer um dos profissionais em campo. Depois veio um par de clutch putts, garantindo mais dois birdies para o Time Woods, dando a eles 11 birdies consecutivos. Tiger filho estava se divertindo muito. Quanto tempo essa diversão pode durar? Pense nas expectativas de grandeza que Charlie terá de enfrentar agora.

Ele parece ser um prodígio. Mas porque é filho de Tiger e porque agora foi apresentado ao público devido a suas habilidades no golfe, os holofotes começarão a ficar muito mais quentes. Como isso o afetará, não como jogador de golfe, mas como ser humano? Será que Tiger teria ajudado Charlie se houvesse esperado mais três ou quatro anos para revelar seu filho ao mundo? Só o tempo vai dizer.

O Time Woods quase terminou o PNC com uma vitória. Eles acabaram duas tacadas atrás de John Daly e seu filho, John II, agora calouro no time de golfe da Universidade do Arkansas. “Foi uma maravilha”, Tiger Woods disse logo depois que ele e seu jovem e agora famoso parceiro encerraram o 18º buraco. “Foi o dia todo de maravilha”. Ele parecia energizado e sorriu aquele sorriso largo e familiar. É tarefa dos pais carregar os filhos. Neste fim de semana, tacada após tacada, Tiger e Charlie carregaram um ao outro - e os resultados foram alegres para ambos. Torçamos para que continue assim./TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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