Tinker, cinquentão que pedala 24h, não vai se aposentar

Lenda do ciclismo disputou, e venceu, a MTB 12 horas, em Cotia

Entrevista com

David 'Tinker' Juarez

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

14 de agosto de 2014 | 15h31

Ele é um mito. E a cada dia, conforme fica mais velho, suas façanhas se tornam ainda mais impressionantes. David "Tinker" Juarez é uma lenda do ciclismo há décadas. Aos 15 anos, já era um piloto profissional, patrocinado, de BMX. Isso em 1976, no tempo em que as bikes de cross eram uma febre. Em 86, depois de se cansar de fazer estripulias em ovais de skate, Tinker migrou para o mountain bike. Hoje, aos 53 anos, dá mostras de uma vitalidade rara. É o único profissional cinquentão que suporta o tranco de provas duríssimas, de 12 e de 24 horas. No último sábado, alcançou o tetracampeonato na categoria Solo na MTB 12 Horas, completando 28 voltas no circuito de 7,5km do Bike Park CEMUCAM, em Cotia. Completou 210km em 11h48min07s. Fichinha para quem já ficou em terceiro lugar na Race Across America, competição que cruza os Estados Unidos de oeste a leste, num percurso de mais de 3,7 mil quilômetros, completados em dez dias- e isso aos 45 anos.

Leia a seguir a entrevista

Como você se sente, pedalando provas de endurance aos 53 anos de idade?

Cansado. É difícil principalmente dormir depois de provas intensas assim. Tenho dificuldades para dormir, principalmente quando compito longe de casa. Por fora estou OK, mas cansado por dentro. Mas os dias vão passando e vou voltando a dormir melhor.

Você faz planos para se aposentar?

Quando completei meu 50º aniversário, muitos achavam que eu iria desacelerar, mas aí provei que gosto de treinar duro, e continuei pedalando duro todos os anos. Se você for ver...Eu vejo em Los Angeles as pessoas irem trabalhar todos os dias. Acordam cedo, entram pela manhã em seus trabalhos e saem às quatro ou  cinco da tarde. Eu treino quatro horas por dia e é isso. Faço meus exercícios e vivo disso. O presidente da Cannondale (marca de bicicletas que o patrocina) disse que, enquanto eu estiver competindo, terei um time. E é isso. Acho que posso pedalar para sempre.

Como foi o seu começo no BMX? Por que o escolheu?

Comecei a pedalar no BMX aos 13 anos. Naquela época (1974) não havia mountain bike. Havia uma pista no parque, e eu ia para lá pedalar com meus amigos depois de sair da escola. Era divertido e amávamos pedalar. O que eu queria, na verdade, era pilotar uma moto de cross. Mas as motos eram muito caras, meus pais não tinham dinheiro. Então eu andava de bicicleta, fingindo que era uma moto. Era divertido. Meus pais viram que era um bom esporte, que me afastava de outros perigos.

Como você se sente nas competições aqui no Brasil? O que acha do nível dos ciclistas brasileiros?

O nível é muito bom. Mas vejo que os caras mais velozes preferem correr em equipe. Ninguém quer correr solo, como eu. Como competem em provas menores, preferem correr em quartetos numa prova de 12 horas. Acaba funcionando como um bom treino para eles. Já os caras mais velhos - não me refiro aos tão velhos como eu, mas aos de 30 anos ou mais, sentem-se mais confortáveis para correr em distâncias mais longas.

O que acha do nível do pessoal brasileiro no mountain bike em termos de Jogos Olímpicos?

Eu não acompanho, verdadeiramente, o cross country. Claro que paro durante a Olimpíada para ver, mas não estou acompanhando o cenário dos outros países, fora o dos Estados Unidos. Não sei como está o panorama, quem são os melhores do Brasil, os melhores da Colômbia.

Como foi sua participação nos Jogos Olímpicos (Tinker competiu no mountain bike nos Jogos de Atlanta, em 96 - ficou em 19º, e em 2000, em Sydney, foi o 30º colocado, aos 39 anos)?

Foi uma grande experiência. Minha especialidade, na época, eram provas mais curtas. Eu fiz o meu melhor. Apenas os dois melhores do país puderam ir para a Olimpíada, e felizmente consegui. Talvez não tenha sido o suficiente para conseguir uma medalha, mas foi bom. A Olimpíada dá uma chance para atletas de todos os países perseguirem essa meta. É uma oportunidade de conseguir patrocinadores, de viver do esporte.

O que você come durante as provas?

Não é nada tão fora do normal - barras energéticas, gel de proteína. Bebo gatorade e água. De comida nornmal, como batatas e bolos de arroz. Os caras mais magros precisam comer mais. Eu tenho uma vantagem: como sou mais velho, demoro mais para queimar carboidratos. É melhor para mim, não preciso comer o tempo todo.

Diante disso, você recomenda então que pessoas com mais de 50 anos pedalem provas de 12 Horas?

Olha, não é necessário competir. E acho que idade é apenas um número. Para um cara normal, participar de uma prova de 12 Horas por mera diversão, com o objetivo de completá-la - isso é uma bela meta. Mas competir é muito duro. Sou o único cara que conheço que compete em provas assim com mais de 50 anos. Eu simplesmente estou seguindo adiante. Talvez eu não chegue aos 70 anos, não sei. Eu me sinto bem por dentro. Sinto que poderia correr para sempre. Eu sou pago para isso. Honestamente, esse é o motivo que me faz seguir adiante. Talvez eu esteja exigindo demais de mim mesmo. Mas é desta forma que estou empregando o meu tempo de vida. Sinto-me bem, e esse é um bom motivo para seguir me empenhando duramente. Simplesmente não me vejo trabalhando em outro tipo de emprego no momento.

Você usa a bicicleta como meio de transporte? Vai pegar seu filho na escola de bike ou sai com ela para fazer pequenas compras?

Minha bicicleta é só pra treinar. Para fazer as outras coisas, vou de carro. Você sabe, carro é um estilo de vida nos Estados Unidos. Eu amo dirigir meu carro. Não tenho tanto tempo assim para guiar, então quando dirijo meu carro é sempre um prazer.

O prefeito de São Paulo está construindo vários quilômetros de ciclovias na cidade, mas encontra muita resistência de comerciantes, que querem o espaço junto às guias para estacionar os carros de quem procura suas lojas. Como vê a questão?

É uma questão difícil. Os comerciantes precisam de vagas para os carros. Mas acho que o espaço para as bicicletas é necessário. É um meio de transporte limpo, é bom para o ar. Com ciclovias, você tem menos acidentes, salva vidas. Nos Estados Unidos, não temos esse problema. Há muitas ciclovias para que os ciclistas possam se locomover a vários lugares.

Você chegou a passear de bicicleta em São Paulo, para conhecer um pouco a cidade?

Sim, fizemos isso. Fomos à ciclovia perto do hotel (a da Marginal Pinheiros, próxima ao hotel em que Tinker se hospedou, nos arredores da Avenida Engenheiro Luis Carlos Berrini). Mas chegamos lá quase na hora de fechar e tivemos que voltar. Em outro dia fomos ao Parque do Ibirapuera, lá foi bem legal. Tem uma volta de três milhas, é perfeito.

Como são seus treinos?

Eu treino preferencialmente na estrada, com uma bicicleta de estrada. A recuperação é mais fácil. Andando de mountain bike todos os dias, você tem dificuldades para se recuperar. Meu segredo é a bicicleta de estrada. Ando de mountain bike umas duas vezes por mês.

Sente saudades do BMX? Ou de andar em pistas ovais de skate?

Eu gosto de assistir a essas provas na TV. Mas não sinto saudades. Não posso mais quebrar ossos. Não tenho mais espaço para cicatrizes no meu corpo.

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