Tira-gosto de luxo

Futebol é paixão, tem de tocar a alma do torcedor sempre. Se não for assim, não funciona. Não há time que sobreviva, se não disseminar emoção, se não significar intensidade, estardalhaço e exagero. Quando se trata de seleção, daí a vibração deve ser do tamanho do país, justamente por aglutinar todas as tribos. Ok, também sem aquela de "todos juntos, vamos pra frente..." Isola!

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2011 | 00h00

Conversa bacana, que já foi indiscutível. Mas será que a seleção atualmente sensibiliza? Ao entrar em campo nesta tarde para enfrentar o Paraguai pela segunda vez em oito dias, a turma de Mano Menezes conseguirá enternecer? Reunirá em torno da tevê parentes e amigos, a roer as unhas por um duelo que vale vaga na semifinal da Copa América?

Posso enganar-me, mas duvido. Claro que haverá muita gente a vibrar a cada drible atrevido de Neymar e xingar se Julio Cesar tomar gol. Se a equipe emperrar, as orelhas do treinador estarão a arder, por causa dos "burros!" e outros adjetivos correlatos a correrem de cabo a rabo por esta gloriosa nação.

Ainda assim, soarão como reações corriqueiras, triviais em qualquer partida de futebol. Como disse, bola rolando é sempre emoção, sem contar que a audiência será grande porque não haverá outros jogos no mesmo horário. E os bravos locutores contribuirão com a arte de tornar épicos esses encontros.

Não pairam no ar ansiedade e apreensão, antigamente tão associadas a qualquer apresentação do scratch canarinho. (Quando era garoto, achava cativante essa expressão.) Não é o assunto a pautar rodas de bate-papo. Aqui em São Paulo, a semana foi dominada pelas trombadas de Kleber com a diretoria do Palmeiras e pela intenção do Corinthians de trazer Tevez de volta. O empate de sábado passado com o Paraguai ou os 4 a 2 sobre o Equador viraram apêndices desses temas atraentes. O jogo de hoje é tira-gosto para as partidas que vêm na sequência pela Série A.

Não era assim, não deveria ser dessa forma. Quem curte futebol cresceu - pelo menos até certa época - a olhar fascinado para a seleção. Quando se aproximava a convocação, sobravam apostas para ver quem acertava mais. E como não faltavam polêmicas tão logo saísse a lista! Era um deus nos acuda se aparecessem mais cariocas do que paulistas ou vice-versa. O torcedor ficava prosa, se um craque de seu time fosse lembrado.

Agora tanto faz quem é chamado ou não. Aliás, tanto faz vírgula! Os clubes do exterior se irritam ao ceder suas pérolas, sobretudo no período de férias, e os fãs por aqui xingam que só, porque seus times estarão desfalcados no Brasileiro. Inversão de valores tremenda.

Motivos para essa mudança existem às pencas. Os jogadores saem cedo do Brasil e constroem carreiras fora. Isso os torna menos íntimos de torcidas locais. Virou moda a seleção apresentar-se na Europa e na Ásia, por acertos comerciais e acordos com cartolas europeus. O calendário é repleto de atividades para os clubes, que se tornam sempre mais importantes nesse negócio.

No caso específico da Copa América, trata-se de torneio sem apelo. Longo, arrastado e chato. Junte-se a isso a imagem desgastada da CBF e o fato de a equipe de Mano estar em formação para desembocarmos nessa quase apatia generalizada. Ou você acha que haverá cortejos e buzinaços em caso de vitória contra o Paraguai?

Seleções tendem a tornar-se obsoletas nos grandes centros do futebol. Brasil, Itália, Espanha, França, Alemanha, Inglaterra, por exemplo, só se ligam nos times nacionais em Mundiais, estes com fascínio poderoso, apesar da desconfiança que a Fifa desperta. As Copas não têm os dias contados. Pelo menos não pra já. Países com currículos pobres ou potências há muito no jejum festejam títulos periféricos. No mais, passam batidos.

Isso não quer dizer que ficarei insensível ao destino de Mano e seus rapazes. Será a primeira decisão desse grupo que se prepara para 2014, o que desperta curiosidade. Se ganhar, de preferência que seja bem, para consolidar a espinha dorsal que o treinador montou - o time da estreia com Maicon no lugar de Daniel Alves.

Se ganhar de forma capenga, que Mano saiba detectar pontos frágeis e os corrija para a semifinal. Se perder, mesmo que jogando mal, que não se atirem pedras nem se peçam cabeças. Talvez seja até o caminho melhor para ter um conjunto forte e competitivo dentro de três anos.

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