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Tite, o retorno?

Em dezembro do ano passado, o relacionamento entre Tite e Corinthians terminou com lágrimas e homenagens. Depois de três anos de um trabalho que produziu as conquistas mais importantes da história do clube, era óbvio que um dia ele regressaria. E que seria uma espécie de sombra para qualquer um que estivesse treinador.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2014 | 02h01

Depois de seu ano mais ou menos sabático, em que acreditou ser o substituto de Felipão depois da Copa, o retorno ao clube que conhece em detalhes pode servir para suavizar a frustração por não ter sido escolhido para comandar a seleção.

Embora não tenha sido anunciada formalmente, a volta representa uma tentativa de recuperar momentos que deram muito certo para ambas as partes. A grande virtude do treinador, que vai além dos títulos, é o seu caráter. É possível que o Corinthians tenha enxergado isso.

Para Tite, a volta pode representar um pouco mais de segurança. Ele conhece o Corinthians e as pessoas. E começará com boa parte do trabalho de reformulação já executado por Mano Menezes. São raros os treinadores que podem escolher o seu local de trabalho. A regra é pegar o que aparece.

Esse período em que passou viajando, estudando e observando jogos pode contribuir para melhorá-lo como profissional, principalmente no período pós-Copa, de obrigatória reflexão para quem vive no futebol.

Não se pode dizer o mesmo do Corinthians. As condições que levaram o clube ao título da Copa Libertadores não estão mais presentes. Isso explica o esforço para trazer Tite novamente, para um trabalho que começa com a disputa de uma vaga na fase de grupos da competição sul-americana.

É impossível não lembrar a derrota para o Tolima, em 2011, o fracasso mais vitorioso da história corintiana, o alicerce das conquistas internacionais no ano seguinte. Aquela turbulência desenhou o sucesso do período seguinte.

Mas o futebol não é assim tão simples. Não basta apenas recuperar o ambiente vencedor do passado para criar o futuro. O Corinthians está diferente, assim como o futebol brasileiro. Há menos dinheiro disponível no mercado, os clubes estão pagando pelos erros cometidos, pelas loucuras que fizeram quando desrespeitaram o bom senso, motivados pela nova divisão das receitas da televisão. Ganharam muito e gastaram mais ainda. Agora a conta não fecha.

Com a experiência de quem viveu o furacão Tolima e venceu a Libertadores no ano seguinte, a nova missão de Tite passa também pela ativação do estádio como negócio. Jogar a competição internacional é vital para dar um novo 'status' à casa corintiana, da bilheteria à venda de camarotes, passando pela comercialização do nome da Arena Corinthians. Há muito mais em jogo agora.

Por isso Mano Menezes não pode ser esquecido. Responsável pela reformulação do time, ele foi dispensado no momento de começar a ver os resultados positivos da fase mais crítica do processo de renovação. Mas isso faz parte do passado.

Agora, além da capacidade de trabalho de Tite, pesa também a gratidão e o amor que a torcida corintiana tem por ele. Afinal, o que levaria 35 mil torcedores ao Pacaembu na penúltima rodada do Campeonato Brasileiro de 2013? Certamente não haveria de ser o futebol da equipe que se arrastava sem vida pelos gramados, resultado de um desgaste que ninguém foi capaz de administrar.

O estádio lotou para dar adeus ao treinador mais importante desde Oswaldo Brandão e a conquista do Campeonato Paulista de 1977. A torcida soube deixar de lado a fase ruim para reverenciar o homem.

Ninguém vai mudar a história, mas é sempre bom lembrar que no futebol apenas o resultado é eterno. Somente novas conquistas vão conseguir manter essa parceria entre Tite e Corinthians entre os contos de amor.

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