Márcio Fernandes
Gabriel Medina comemora o título inédito no campeonato mundial de surfe  Márcio Fernandes

Título de Gabriel Medina vai globalizar a prática do surfe

Festa da torcida brasileira na conquista em Pipeline impressiona o mundo da modalidade e já eleva o novo campeão à condição de lenda

PAULO FAVERO - ENVIADO ESPECIAL - HAVAÍ, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2014 | 17h00

Ninguém esperava tanta festa no Havaí por causa do título mundial de Gabriel Medina no surfe. O brasileiro fez história nas ondas, mas a torcida marcou presença com tanta força que chamou a atenção de todos durante o Billabong Pipe Masters, última etapa do Circuito Mundial. “A praia estava lotada, eu nunca tive uma torcida assim no Havaí, com muitos brasileiros e alguns gringos. Foi incrível”, comenta Medina.

As areias de Pipeline foram tomadas por bandeiras brasileiras, camisas da seleção de futebol e mesmo no dia seguinte ao título muitos brasileiros foram vistos vestindo as cores verde e amarela com orgulho. “Foi irado ver vários brasileiros. Ter essa corrente positiva não é pressão, é motivação”, continua o atleta, que deixou para trás veteranos vitoriosos como Kelly Slater e Mick Fanning.

Charles Saldanha, seu pai e treinador, também imaginou que a alegria pudesse tomar conta se o brasileiro conquistasse o título. “Às vezes eu pensava assim: no dia que o Gabriel fosse conseguir um título, ou estivesse no Havaí com grande chance, acho que eu vou levar uma escola de samba. Pensava um negócio assim. É legal sonhar com esse dia, porque quando faz isso, é porque vai acontecer”, confessa Charles. 


E ele entende que foi mais ou menos isso que ocorreu e comparou, inclusive, às comemorações feitas por torcedores de futebol. “A gente fez a maior festa na areia da praia, e foi muito legal. Parecia uma arquibancada de futebol, com gente pulando, acho que os gringos nunca viram uma coisa assim. Quebrou todos os protocolos e mostramos que somos um povo alegre, que o brasileiro é legal e é do bem. Infelizmente, a minoria estraga o País, mas a maioria dos brasileiros é assim: trabalhadora e indo atrás dos sonhos com dignidade.”

Campeão mundial em 1999, o australiano Mark Occhilupo ficou estarrecido com o que viu no Havaí, pois parecia que Medina estava competindo em Maresias, onde mora no litoral paulista. “Eu nunca vi nada igual a isso numa competição de surfe, fiquei arrepiado. Ele é uma lenda”, afirma o ex-surfista, que viu de perto a vibração das pessoas, que cantaram músicas em referência ao Brasil e gritaram o nome do surfista.

A conquista do título no Havaí, com o vice-campeonato no Pipe Masters – Medina perdeu para o australiano Julian Wilson na final –, colocam o brasileiro em outro patamar, não apenas no surfe como também no esporte em geral. Após o feito, ele garante que tem consciência disso. “Sem o resultado já estava mudando a vida de muita gente, agora é uma responsabilidade muito grande. Mas eu sei disso e isso é bom”, avisa.

A seriedade com que treina e o foco que demonstra dentro da água são realmente um diferencial importante na carreira. Charles lembra que ele é movido por disputas. “Ele já tinha sido campeão mundial e mesmo assim voltou para água para a bateria seguinte. Ele queria ganhar o Pipe Masters. A mania dele é vencer, mas lealmente. Pode ser na carta, no pingue pongue, até já proibi de jogar de futebol ou skate, porque pode se machucar. Temos de segurar a criatura”, brinca.

Agora Medina ganhará férias e terá um merecido descanso após fazer história. Ele passou as últimas semanas bastante concentrado, evitou badalações e abriu mão de muitas coisas que um jovem de 20 anos faz para conquistar o tão sonhado troféu. Mas com fome de vitórias, já sonha com um novo título em 2015 e garante estar pronto para brilhar na próxima temporada. “Ainda não caiu a ficha. Parece que está todo mundo mentindo para mim. Eu fui o primeiro campeão mundial do Brasil, eu queria agradecer a Deus, e espero que esse troféu seja o primeiro de muitos”, conclui o surfista, que já havia deixado em sua casa em Maresias um lugar na estante para colocar a mais importante honraria que um surfista pode ter.

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'Tempestade brasileira' promete brigar no topo do surfe mundial

Liderados por Filipe Toledo, Wiggoly Dantas, Adriano de Souza, Miguel Pupo e Jadson André, Brasil deve brilhar na temporada 2015

PAULO FAVERO - ENVIADO ESPECIAL - HAVAÍ, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2014 | 17h00

No próximo ano, o Brasil terá não somente o campeão mundial, mas também alguns surfistas talentosos que devem brigar no topo de cima do Circuito. A geração que ganhou o apelido de “Brazilian Storm”, algo como tempestade brasileira, numa alusão à grande quantidade de bons atletas, deve continuar impressionando.

O primeiro da lista é Filipe Toledo, paulista de Ubatuba, que vem chamando a atenção principalmente por seus aéreos. O garoto já está na elite e foi campeão ao mesmo tempo do WQS, a divisão de acesso. Aos 18 anos, é uma das apostas para 2015. “Estou amarradão com o título do Gabriel, é um feito inédito e será muito bom para o surfe brasileiro, para todos que estão no Circuito e para a nova geração que está vindo aí”, diz Filipinho.

Ele lembra ainda que o País brilhou com Silvana Lima no WQS feminino e teve outros bons resultados nas categorias de base e nas pranchas maiores. “Acho que é o melhor ano do Brasil no Circuito Mundial de Surfe. Eu consegui ganhar o WQS, o Gabriel o WCT, acho que nos próximos anos só dará Brasil. Estou bem tranquilo, só vou treinar muito nos próximos meses para chegar com força no início da temporada, para estar na corrida pelo título.”

Outros dois atletas garantiram vaga pelo WQS e devem dar trabalho, mas sofrerão um pouco com a adaptação na elite: o paulista Wiggolly Dantas, de 25 anos, e o potiguar Ítalo Ferreira, de 20 anos, que recentemente venceu Gabriel Medina duas vezes na etapa Prime de Maresias. Ele é o atual vice-campeão mundial júnior.

E não se pode deixar de lado nomes como Adriano de Souza, Miguel Pupo e Jadson André, que estão garantidos na elite, têm experiência e devem ajudar a escrever o nome do Brasil no surfe. “Foi um ano maravilhoso do Brasil, para ver que não é só o Gabriel. Muitos estão indo bem, e essa emoção que está em volta dele contagia todo mundo. Todos os brasileiros têm condições de traçar esse caminho. Ele foi guerreiro e estou muito feliz por ele. Como diz o Kelly, ele é um mágico. Desde pequeno é assim”, conclui Miguel Pupo, melhor amigo de Medina no Circuito.

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Feito inédito de Gabriel Medina no surfe incentiva outros países

Entidade que rege o esporte passará a se chamar Liga Mundial de Surfe por isso ajudará nas questões comerciais e de marketing

PAULO FAVERO - enviado especial ao HAVAÍ, O Estado de S. Paulo

20 de dezembro de 2014 | 17h00

A ASP (Associação dos Surfistas Profissionais) vai entrar em 2015 tentando marcar uma nova era. A entidade que rege o esporte passará a se chamar Liga Mundial de Surfe (WSL, da sigla e inglês), pois segundo pesquisas o novo nome ajudará nas questões comerciais e de marketing. Por isso, Gabriel Medina pode ser considerado o último campeão da ASP.

A estratégia para o próximo ano é reforçar o processo de estruturação e modernização da entidade, que conta com um CEO, Paul Speaker, que responde pelo grupo ZoSea, detentor dos direitos do Circuito Mundial. A intenção é manter a tradição do esporte, mas ao mesmo tempo criar condições para um crescimento.

E essa missão conta com um papel importante do Brasil no cenário mundial. Só para se ter uma ideia, a transmissão do dia final no Billabong Pipe Masters na última sexta-feira bateu todos os recordes de audiência e o servidor não aguentou em alguns momentos tamanho o interesse dos torcedores. Isso já deu uma amostra do tamanho do mercado brasileiro.

Outro fator importante é que a entidade já está entendendo que Medina é um ídolo em ascensão, que pode ocupar um lugar ao lado de Kelly Slater no futuro. O talento do jovem surfista, aliado ao seu carisma nas redes sociais, é um prato cheio para a ASP, que vê o atleta como um bom embaixador do surfe para outros países da América Latina e da Ásia.

O esporte sempre foi dominado por australianos e norte-americanos. Mas a ASP quer globalizar ainda mais a modalidade e vê no título de Medina um recado para crianças da China, Venezuela ou México de que é possível chegar longe mesmo estando fora do eixo dominantes no Circuito Mundial.

Para os próximos anos, existe a ideia de incluir mais uma etapa no calendário, chegando a 12 no total, em algum lugar na Ásia, possivelmente Indonésia, que tem muitas praias com boas ondas. O Japão também é visto com bons olhos, porque tem um grande mercado. As mudanças no surfe estão apenas começando e Medina sabe que pode ajudar nisso. 

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