Tive de engolir de pertinho as papagaiadas do Barthez

Eu ainda era um "moleque", como dizia o saudoso Janjão Rodrigues, editor de A Gazeta Esportiva, em 98. Tinha 21 anos de idade e poucas semanas como estagiário do jornal - cursava o 4º ano da faculdade de jornalismo. Faltavam mais ou menos três meses para o início da Copa. Estava entusiasmado para participar da cobertura da redação. Certa tarde, me pediram que fosse a um evento "para ver o que acontecia". Um evento ligado ao Mundial, sem importância - era o lançamento de algum produto. Ninguém queria ir, é claro. Sobrou para mim, "um moleque" em início de carreira. Lá, fizeram um sorteio entre os jornalistas. Quem ganhasse iria com tudo pago para a França. O papelzinho sorteado, acreditem, carregava o meu nome!Voltei para casa e festejei com minha família. Mas, depois da euforia, pensei: "Ganhei, mas estava representando o jornal, eles não têm a obrigação de me mandar para a Europa, vão mandar alguém mais experiente, claro."Cheguei à redação e, apreensivo, contei a história ao Janjão. Ele dizia não acreditar. "É um moleque de sorte..." E me mandou para a França ao lado dos repórteres que já haviam sido escalados. "Mas vai para trabalhar, nada de passear." Queria, mesmo, era trabalhar. E, como não tinha credencial da Fifa, tratei de fazer reportagens de ambiente, torcida, plantão na concentração...Nem tudo, porém, saiu como planejava. A agência de turismo com que fui para a França teve problemas com ingressos. O bilhete da final, que estava incluído no pacote, nunca apareceu. Os responsáveis pela empresa recomendaram a mim que comprasse de cambistas, prometendo o reembolso. Paguei US$ 2.500,00 (se minha memória não estiver falhando) a um espanhol para ficar atrás do gol de Taffarel no primeiro tempo. Vi bem de perto os dois gols de Zidane - acho que não havia 10 metros de distância entre mim e a trave. Na etapa final, tive de engolir as papagaiadas do Barthez. E a merecida festa dos franceses, que respeitaram minha tristeza.Antes de ir embora, como consolo, recebi meus US$ 2.500 de volta.

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