Todos os ''sacrifícios'' dos atletas amadores

Para largar no pelotão da frente, corredores ficam horas guardando lugar, sem comer e beber

Bruno Deiro e Giuliander Carpes, O Estadao de S.Paulo

31 de dezembro de 2008 | 00h00

Ficar na primeira fila de um espetáculo sempre sai mais caro. Na São Silvestre é a mesma coisa. Se não dói no bolso, sair na frente dos demais corredores amadores que disputam a prova pode custar muito caro, pelo menos ao organismo. Para conseguir um espacinho privilegiado no batalhão de ponta na largada da corrida, os atletas chegam a ficar mais de cinco horas parados, praticamente estáticos, amassados pela multidão que se coloca atrás.Alimentar-se enquanto guarda o sagrado lugar no pelotão da frente nem pensar. Hidratar-se só às vezes, isso se o atleta contar com a passagem de um ambulante pelo local ou se um amigo se prontificar a ajudar levando água. O aquecimento tem de ficar mesmo para os primeiros quilômetros de prova. Um perigo para quem quer correr por quase duas horas para completar os 15 mil metros da tradicional corrida.Mas vale a pena. Ao menos é o que garante o churrasqueiro José de Cássio Silva, de 41 anos, que se escorou na grade de proteção lateral da Avenida Paulista, bem na linha de frente da largada, antes do meio-dia de ontem. A prova começou pouco antes das 17 horas, mas sua última refeição - "macarrão com pernil, para dar energia", conta - foi feita bem antes, por volta das 10 horas. "Aqui dá para largar forte e fazer uma boa corrida. Se ficar lá atrás, a gente não consegue correr bem a prova", explica o churrasqueiro. Mesmo atletas amadores como José da Silva são capazes de proezas difíceis de acreditar. Ele trabalha todos os dias das 8 às 17 horas e, mesmo depois de uma jornada para lá de cansativa, ainda tem fôlego para correr cerca de 20 quilômetros por dia. E, há 15 anos, ele comemora a chegada do ano-novo disputando a São Silvestre. É a sua festa. "Não fico com dor, estou acostumado", garante.SÓ ALEGRIAFazer festa, aliás, é o intuito da maior parte dos 20 mil atletas inscritos na corrida. Tem gente que vem de muito longe e treina o ano inteiro, algumas vezes até fantasiado, como faz o cearense Francisco Fernandes Santos. Ele veio da pequena Iguatu, distante 2.763 quilômetros de São Paulo. Só para chegar à capital paulista, já disputou uma maratona: quase três dias de ônibus e hospedagem no alojamento de atletas do Ibirapuera. Nem por isso perdeu o entusiasmo. Queria correr e... divertir-se. Santos está participando pela nona vez da São Silvestre - e sempre aparece vestido de Lampião, roupa que também usa nos treinamentos diários. "Aqui a coisa é séria, menino", brinca Santos, que nunca deixou de completar a prova, apesar do pesado macacão. "Fico todo esturricado com o calor, mas vale a pena."

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