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Antero Greco
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Todos somos Arouca

O início da Quaresma no Brasil foi marcado por comportamento racista de alguns torcedores em relação a Arouca, após o jogo em que o Santos visitou o Mogi Mirim e goleou por 5 a 2, pelo Paulista. Dia desses, a vítima de grosseria idêntica tinha sido Tinga, na apresentação do Cruzeiro no Peru, pela Taça Libertadores. Anos atrás, ficou famoso o caso do argentino Desábato, então no Quilmes, que ofendeu Grafite, em partida com o São Paulo, no Morumbi, e saiu do estádio para a delegacia. Na Europa, não passa semana sem que um jogador negro sofra insultos pela cor da pele.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2014 | 02h02

Praga universal, que não se justifica em lugar nenhum. Só cretinos e ignorantes para acreditarem, no século da tecnologia avançada, que haja raça superior a outra. Sentimento tão rudimentar e ultrapassado quanto mutilar mulheres ou exigir que se cubram da cabeça aos pés. Ou perseguir homossexuais com leis que preveem até pena de morte para quem tiver semelhante "vício". Há muito atraso de vida por aí.

Por aqui temos tradição de preconceito - o futebol é apenas mais um dos meios pelos quais ele se manifesta. Basta uma olhada no dia a dia, ao nosso redor, para constatarmos quantas reações negativas se acumulam também por classe social, origem, sexo, profissão, grau de instrução, maneira de vestir-se. Somos um país de muitos "doutores" e olhamos de nariz empinado quem está em escala inferior à nossa.

Não espanta que mesmo jogadores de clubes tradicionais amarguem experiências dolorosas como a de Arouca na noite de quinta-feira. Agressão que não se limita à palavra, algo inócuo, da boca pra fora; é também moral, psicológica. Lamente-se a passividade de quem viu e ficou indiferente. Ou, pior, sorriu como se fosse inevitável e normal.

Houve avanço nos últimos anos. Mas carecemos de educação, sensibilidade, postura cívica, generosidade. De amor. Uma constatação singela e irrefutável foi feita por Desmond Tutu, o bispo sul-africano Prêmio Nobel da Paz pela luta contra o apartheid. Na festa de abertura do Mundial de 2010, no bairro de Soweto, em Johannesburgo, esse homem extraordinário deu as boas-vindas ao público com a lembrança de que "somos todos africanos". Somos, sim. Todos somos Arouca.

Desagravo. Santos e torcida têm maneira bacana de mostrar solidariedade com Arouca: uma apresentação de gala neste domingo diante do Oeste, com gols e aplausos. Bola na rede não é tarefa complicada para a rapaziada de Osvaldo de Oliveira no torneio estadual. O time marcou 30 gols até agora, dois terços deles em quatro goleadas monumentais: 5 a 0 no Bragantino, 5 a 1 no Corinthians e no Botafogo, 5 a 2 no Mogi. Ok, mas levou de 4 a 1 do Penapolense. Acontece, acidente de percurso.

O Santos se revela um fenômeno. Vende, empresta, troca, muda o time, perde estrelas como Robinho, Diego, Neymar e se reconstrói. Abusa, nos anos 2000, de jogo leve e atrevido. A todo momento tira da cartola mais um jovem talentoso. Talvez sejam as praias, talvez o ar da cidade. Ou o bom trabalho na base. O Paulistão pode não ser parâmetro exato para medir competência. Mas esse Santos tem dado gosto de acompanhar.

Majestoso. São Paulo e Corinthians fazem hoje clássico que interessa demais para ambos. Vitória no Majestoso (e não Choque-Rei, como me traiu a memória na crônica de anteontem) vale para os tricolores a quebra de incômodo jejum de 12 jogos sem vencer rivais de peso. Não é rotineiro para gigante desse calibre. Para os alvinegros, poderá representar passo enorme para uma vaga para as quartas de final.

Não por acaso Muricy e Mano apostam em força máxima, ou quase isso. O Corinthians, por força de acordo obsoleto, não poderá contar com Jadson, que migrou do Morumbi e se encaixou à perfeição. O São Paulo ainda se priva de Pato, por força de regulamento limitador. Ainda assim, está com pinta de duelo animado. Tomara.

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