Todos temos nosso jogador odiado

Todos temos nosso jogador odiado. Um jogador do nosso time que odiamos incondicionalmente. Um jogador em relação ao qual somos implacáveis. Jogadores que não podemos ver e que, contraditoriamente, merecem uma atenção especial. Ficamos de olho nele o tempo todo e talvez isso o torne o jogador de quem somos mais próximos. A aversão faz com que a gente não o perca de vista nem um minuto.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2010 | 00h00

Sabemos todos seus trejeitos. Sabemos seus movimentos e podemos adivinhar o passe errado quando ainda nem aconteceu. Identificamos no corpo o começo do equívoco. Quando ele pega a bola e inicia a coreografia do desastre a vontade é gritar: "Não! Não faça isso de novo!" Mas ele, imperturbável, com uma crueldade refinada, executa todos os movimentos costumeiros e dá com toda a convicção o mesmo passe errado que tanto conhecemos.

A vontade é entrar no vestiário, pegar o treinador pelo pescoço e perguntar se ele não vê o que nós vemos da arquibancada ou até de casa. A vontade é perguntar se não tem ninguém pra por no lugar do detestado.

"Nem eu errava". O odiado, aliás, é um jogador que achamos que podemos, nós mesmos, substitui-lo. "Esse passe nem eu errava!" É uma expressão que acompanha o detestado e dá a dimensão de nosso ódio. Quando as coisas vão bem para o nosso time até que o odiado passa um pouco despercebido.

Sim, ele lá está, sabemos disso, mas, como tudo anda bem, é como se ele não existisse. Como se o time jogasse com dez. Isso quando time vai bem. Quando vai mal, descarregamos toda nossa indignação no odiado, claro.

3.º amarelo ou expulsão. Torcemos pra ele não entrar em campo. Pensamos em possibilidades salvadoras. Que, por exemplo, ele tenha recebido o terceiro amarelo na partida anterior, ou que tenha sido expulso. Aí vamos para o campo ou diante da televisão, e lá está ele! Perfilado, ouvindo o Hino Nacional do qual não sabe uma palavra sequer. A câmera acompanha seus lábios que tremem desarticuladamente em busca das palavras que não sabe. E nosso ódio se abate com toda a fúria.

Somos frequentemente injustos com os odiados. Se eles estão no time é porque alguma coisa fazem. Mas essa coisa nós ignoramos solenemente. Fingimos que não vemos quando sai uma jogada do pé do odiado. Pior, rimos. Quando ele, num acaso supremo, executa um bom passe, os que odeiam se entreolham e riem, porque sabem que estão vendo o impossível, a miragem.

Por que cruzava? Havia, há muitos anos, um jogador no meu time, que na época era realmente um time, que teimava em só cruzar a bola depois que já tinha ultrapassado a linha de fundo. Eu o odiava. Torcia pra ninguém meter uma bola por ali. Mas a bola chegava, ele dava um pontapé nela e depois não a conseguia alcançar. Quando já tinha ultrapassado a linha ele cruzava. Por que cruzava? A bola já tinha saído! Mas ele cruzava. Todas as vezes.

Durante anos o odiei profundamente e esqueci as vezes em que a bola não saiu, ele cruzou e alguém fez um belo gol. O odiado é isso. Faça o que faça, é odiado.

Competição pelo ódio. O problema é quando o time está tão mal que o odiado começa a ter concorrentes. Outros começam competir com ele pelo nosso ódio. Outros que também se repetem. Há os que fazem sempre a mesma falta, os que rebatem de cabeça sempre pra entrada da área e a bola cai no pé de um atacante, etc, etc. Isso me irrita muito, quando vejo mais gente do time tentando tomar lugar do odiado. Não queria que ele perdesse esse lugar no meu coração.

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