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Antero Greco
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Tons de racismo

Abri o computador pra batucar a crônica de hoje disposto só a elogiar a convincente vitória do Corinthians no clássico de anteontem e a espinafrar o desempenho do São Paulo, que na prática ainda não estreou na Libertadores. Mas dois episódios horríveis ocorridos fora daqui - nem por isso menos distantes de nós - me fizeram mudar de ideia. Ambos ligados a preconceito racial, essa praga que não some com propaganda e cartazes, e pelo jeito não sumirá tão já.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2015 | 02h05

O fato que fez mais barulho foi o comportamento hostil, tosco, imbecil mesmo, de um grupo de ingleses que impediu a entrada de um negro numa estação do metrô de Paris. Eles voltavam do jogo em que o Chelsea havia empatado por 1 a 1 com o PSG pela Champions League, no Parque dos Príncipes. Um bloco de idiotas que se sentiu macho fora do próprio país.

O caso é grave sob qualquer ótica. A começar pela discriminação. Depois, pela arrogância de maltratar um cidadão francês na terra dele, pelo arrotar postura fascista mesmo diante de filmagem que foi parar no site do The Guardian, ao cantarem "Somos racistas, somos racistas". Dá para identificar alguns desses lixos humanos, torço para que paguem pela truculência. O tema é abordado com clareza brilhante - como sempre - em artigo de Giles Lapouge na página ao lado.

O outro caso passou batido por aqui e não teve tanta repercussão. No entanto, não deixa de ser triste e frustrante, sobretudo por colocar nome famoso como protagonista. O brilhante ex-técnico Arrigo Sacchi - vice-campeão do mundo com a Itália em 1994 e arquiteto de Milan fantástico - deixou escapar raciocínio pobre (e podre) numa cerimônia em Montecatini Terme, uma estância mineral italiana.

Ao analisar a situação opaca do calcio, o ex-diretor do Real Madrid que contratou Vanderlei Luxemburgo em 2005 para dirigir galácticos disse o seguinte: "A Itália está sem dignidade nem orgulho, porque tem muitos jogadores estrangeiros, até nos times de juniores. Nos nossos setores de base há muitos jogadores de cor." Parte da plateia aplaudiu o comentário supostamente nacionalista; outra ficou estupefata.

Sacchi levou bronca de todo canto da Itália bem pensante, multirracial e aberta. Ao notar a bola fora, ensaiou recuo, e a explicação complementar soou pior do que a original. "Racista? Trabalhei com tantos craques negros e os indiquei para os clubes que comandei. Só sublinhei que estamos perdendo o orgulho nacional." Não colou.

Em defesa do ex-colaborador de Silvio Berlusconi, vários analistas ressaltaram que ele se referia ao excesso de jovens estrangeiros nas equipes juvenis. E que tal prática revelava o mercantilismo do futebol. Tentativa frágil de defesa. Em primeiro lugar, Sacchi não apresentou números, estatísticas a respeito da quantidade de garotos estrangeiros em comparação com a de jovens italianos que se preparam para jogar futebol profissional por lá.

E, mesmo que houvesse rapazes de fora, por que se referiu especificamente aos "de cor"? Os brancos não roubam a "dignidade e o orgulho"? E quem disse para Sacchi que os meninos negros não são italianos? Quem garante ao brilhante professor que a Itália não esteja, digamos, mais morena? Ou ele pensa que o país em que nasceu não sofre influência das correntes migratórias? Balotelli é ou não italiano? Ou será que o fato de existirem negros com passaporte italiano representa um golpe duro na dignidade nacional?

O desabafo de Sacchi, mesmo se tomado como ato falho, revela o quanto falta para o racismo virar só triste memória na Europa. Mas será que só lá? Por aqui como vamos?

Sem ressalvas. O Corinthians provou que não está para brincadeira na Libertadores deste ano. Os 2 a 0 sobre o São Paulo vieram com autoridade, apesar da falta não marcada no lance que originou o segundo gol. O time de Tite jogou com a consciência de que sabe o que quer. A turma de Muricy parecia a passeio.

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