Jonne Roriz/AE - 26/8/2004
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Torben Grael diz adeus à vela olímpica

Alegando falta de condições de competição, maior atleta olímpico do Brasil decidiu antecipar o fim da carreira em Jogos

Valéria Zukeran, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2011 | 00h00

SÃO PAULO - O Brasil quer se orgulhar de organizar uma Olimpíada em 2016, mas o presente não dá motivos para alegria. O maior atleta olímpico da história do Brasil, Torben Grael, anunciou a decisão de antecipar o encerramento de sua carreira competitiva em Jogos - vai continuar com a vela oceânica - alegando falta de incentivo. E se despede, aos 51 anos, com um pedido: o de maior apoio às categorias de base do esporte que mais deu medalhas ao País - 16 ao todo.

Torben é responsável por praticamente um terço das conquistas olímpicas da vela brasileira - dois ouros, uma prata e dois bronzes. É um dos poucos atletas do mundo a ostentar - se bem que a palavra ostentação nunca combinou muito com o estilo sóbrio do velejador - um "kit" de medalhas em casa. Com o anúncio da exclusão da classe Star nos Jogos de 2016, anunciada pela Associação Internacional de Vela (Isaf) em maio, disse que a luta por uma vaga em Londres, no ano que vem, seria a última.

O velejador, no entanto, antecipou a despedida. "Não foi só um motivo que me levou a tomar a decisão foi um conjunto de coisas." Torben conta que não tinha condições ideais para uma campanha olímpica e que chegou a apresentar alguns projetos à Confederação Brasileira de Vela e Motor (CBVM), que está sob intervenção, os quais não conseguiu colocar em prática. "Ficamos um ano e meio tentando para ver se mudava alguma coisa." Mas nada mudou. "Sem condições, não valia a pena fazer."

Além disso, Torben ressalta, a campanha olímpica é trabalhosa. "Exige que você participe de uns dez eventos." Neste período, tanto ele quanto seu companheiro, Marcelo Ferreira, deveriam abandonar outros projetos pessoais. Ambos pensaram e resolveram parar.

Torben conta que tem outros projetos e é patrocinado pela Gol e a Mitsubishi. Discreto, não comenta, mas é de conhecimento no meio da vela que as categorias oceânicas são mais rentáveis financeiramente do que as olímpicas e o currículo do brasileiro é mais do que atraente - já disputou competições de grande porte, como a Americas"s Cup, na qual foi finalista, e a Volvo Ocean Race, que venceu em 2008/2009 e soma-se a isso as medalhas olímpicas e os seis títulos mundiais (Star/1990, Snipe/1987, Snipe/1983, Snipe Jr. /1978, One Tonner/ 1992 e 12 Metre/1999).

Apesar das aparências, Torben garante que não há mágoa pois só tem boas lembranças de sua carreira olímpica e teve apoio nos momentos necessários. "Uma hora a gente tinha de parar", pondera. "Só juntou as condições para a gente (ele e o companheiro de Star Marcelo Ferreira) tomar essa decisão." Ele garante que a boa fase de Robert Scheidt (e Bruno Prada), rival na classe Star, não influenciou. "Ele fez a parte dele. Tinha as condições. A gente não tinha."

Dinastia. A despedida de Torben das competições olímpicas não significa o fim da presença da família Grael na vela brasileira. Seus dois filhos, Marco e Martine, são velejadores e lutam por uma vaga nos Jogos de Londres. Torben acha improvável se tornar treinador dos filhos. "Colocaria uma pressão muito grande sobre eles", pondera.

O velejador garante que não foi pensando em Marco e Martine que decidiu se despedir com um pedido: o de maior apoio às categorias de base. Acha que, atualmente, com os problemas internos da CBVM, os velejadores brasileiros optam por não seguir carreira. "Você vê a Inglaterra: eles dão apoio a cinco equipes em uma mesma classe. Aqui você é estimulado a parar antes mesmo de começar."

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