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Ugo Giorgetti
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Torcedores

13 de agosto, quarta feira, foi um dia sinistro. Pela manhã, o jatinho que levava o candidato a presidente Eduardo Campos no meio da chuva e da névoa caiu em Santos cobrindo o País de assombro, estupor e tristeza. A vida transcorreu meio em câmera lenta nesse dia, todos divididos entre o cumprimento das tarefas normais e o choque da tragédia nacional. Ninguém trabalhou direito e o fim da tarde só veio para trazer mais frio. Avizinhava-se uma noite pavorosa, com toda a nação diante das câmeras de TV, todos paralisados pelo desastre, informação dolorosa atrás de informação dolorosa, e chuva e frio. Noite de recolhimento, em que as pessoas guardam silêncio por não saber o que dizer. Noite para ninguém sair de casa.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2014 | 02h04

No entanto, 7.522 torcedores foram ao Morumbi para ver São Paulo x Bragantino pela terceira fase da Copa do Brasil. Parece pouco, mas não é. Fosse um dia normal já não seria pouco. O São Paulo anda irregular nos resultados e o Bragantino não é uma grande atração. Numa noite comum, portanto, seria um público aceitável para uma partida dessas. Num estádio médio também. Mas numa noite horrenda, depois de um dia terrível, a quantidade de gente que foi ao Morumbi é quase inimaginável. Esse fato me fascinou.

Queria estar lá e ver com meus próprios olhos quem eram, de onde vinham, para onde iam. Seria o pessoal das uniformizadas? Pode ser, mas todos os 7. 522? Na falta disso só posso fazer conjecturas. Só sei, com certeza, que não são torcedores comuns, esses ficaram em casa deitados no sofá, embrulhados em cobertores, atentos aos noticiários da TV. Os do Morumbi são outra gente. De novo: quem é essa gente? O que os levou ao estádio em condições tão difíceis para não dizer absurdas? Principalmente ao Morumbi.

Quem já frequentou estádios sabe o frio tremendo que já sofreu. Não sei essas novas arenas, mas os velhos estádios, com seus descampados, fazem tiritar um pinguim. O Morumbi, imenso, duplica o frio. E a solidão. E a saída do estádio, então? Você se sente parte de uma pequena, quase clandestina confraria, saindo do campo por aquelas rampas enormes feitas para escoar multidões, uns poucos aqui, outros ali, uns arriscam um comentário ao passar, uma palavra que nos ligasse, que nos fizesse cúmplice da mesma loucura. E depois, em minutos, na rua, ninguém mais por perto. Nem carrinho de pipoca, nem cachorro quente, nada.

Sei do que estou falando. Já fui pessoalmente vítima, anos atrás, de uma noite gelada no Morumbi com um público baixíssimo, talvez menor do que esse de quarta feira. A pergunta que mais me ocorria enquanto tentava ainda sentir meus pés dentro dos sapatos era: O que eu estou fazendo aqui? Que diabo eu vim fazer aqui? No meu caso tinha sido vítima da chantagem de uma criança a quem eu mesmo tinha legado o gosto por futebol. Mas essa gente de São Paulo x Bragantino que explicação teria? Ou não teriam nenhuma, apenas sua paixão por um clube, sua impossibilidade de resistir em acompanhá-lo não importa o estado de espírito da cidade, a chuva e o frio. Serão ecos da infância, costumes solidificados por gerações e gerações, será que para alguns o estádio é uma espécie de igreja para onde vão como um dever, um ritual a ser cumprido? Nem o resultado importa. Terão saído tristes porque o São Paulo perdeu? Talvez, mas tenho certeza que isso não impedirá sua presença no próximo jogo.

Uns dias atrás, nesse mesmo Campeonato Brasileiro, o São Paulo levou mais de 40 mil pessoas no Morumbi, num jogo não muito importante. A essência do futebol, no entanto, o que mantém o futebol brasileiro vivo, apesar de tudo, não são os 40 mil do domingo ensolarado, mas os 7. 522 da noite horrível de quarta- feira. Da minha parte, gostaria muito de pensar que no meio deles ainda pudesse haver uma criança a quem o pai tivesse prometido levar ao estádio, sem saber o que o esperava na quarta-feira.

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