Torcer na Javari é diferente

Boleiros

Ugo Giorgetti, ugog@estadao.com.br, O Estadao de S.Paulo

16 de agosto de 2009 | 00h00

Filmes sobre futebol continuam sendo feitos. Claro que nem todos empolgam, mas não importa, é da quantidade que saem os bons. Ricardo Dias, cineasta do belo filme sobre Paulo Vanzolini ainda em cartaz na cidade, e amigo a quem devo várias sugestões para a coluna, descobriu e me trouxe um novo filme, um curta-metragem, feito por gente provavelmente muito jovem, e absolutamente delicioso. A começar pelos letreiros do título: Juventus - Rumo a Tóquio. O filme se passa todo na rua Javari, durante um jogo decisivo Juventus x Linense, que decidia o título da Taça Federação Paulista de 2007 e dava ao campeão o direito de ir para a Copa do Brasil, o que abria possibilidades para sonhos mais delirantes, como - por que não? - a final do mundial de clubes em Tóquio. Se já no título o filme embute todo o humor e a falta de cerimônia com que os realizadores tratam o futebol, a próxima provocação vem com o letreiro do subtítulo: "Ódio eterno ao futebol moderno". De fato o que vem a seguir é tudo, menos futebol moderno. O pequeno e venerável estádio aparece lotado com torcedores pulando e cantando. Esqueça, porém, a raiva, esqueça os gritos de guerra pedindo sangue, os olhares furibundos de torcedores que vão ao estádio para matar e morrer, esqueça os negócios, a elegância de comentaristas uniformizados e comedidos, esqueça tudo o que você vê no futebol de brutal ou meramente idiota. Diante de nós transcorre uma partida que parece igual às outras, mas não é. Com seus sotaques paulistanos, engolindo os "esses" finais e embalados por uma inconfundível cantada italiana, a torcida está lá para defender não só o Juventus, mas a Mooca. Muitas das belíssimas camisas grenás trazem associados os nomes do Juventus e da Mooca. E, mais que a Mooca, um jeito de viver. Uma das virtudes do filme é nos mostrar esse mundo à parte que resiste, que desconhece olimpicamente as mudanças e que no intervalo desse jogo decisivo - que um letreiro ironicamente classifica como "Show do intervalo na Javari" - se dedica em massa, ignorando todos as novas iguarias disponíveis no mercado, a comer gulosamente os ancestrais canolis do seu Antonio. O filme é politicamente incorretíssimo. Num primeiro momento velhos e jovens - para minha surpresa há imensa maioria de jovens - parecem figuras de outros tempos. Mas são do presente e estão aqui entre nós. O torcedor filmado com o corpo colado ao alambrado, a poucos metros do gol, dando cuidadosas instruções ao seu goleiro, estabelece com o jogador uma relação de igual para igual que parecia perdida para sempre. Ela, porém, existe, é um fato e não obra de ficção. Na Javari a torcida se dá de outro jeito. Há algumas poucas coreografias ensaiadas, mas desiguais e razoavelmente em desordem. A sensação é que ninguém recebe ordens de ninguém. O que fica desse filme é a constatação de que é possível viver sendo minoria. O poder que nos massifica diariamente não pode tudo. E os que se sentem de algum modo fora do rebanho, devem procurar a minoria a que pertencem. Elas estão por aí em algum lugar. Como na Javari. Esse belo pequeno filme, que reserva também saborosas surpresas no "enredo", estará sendo exibido no 20º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, que começa no dia 20. Não percam Juventus - Rumo a Tóquio.

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