Torcida em fúria ameaça dirigentes nas tribunas

Derrota no clássico para o Corinthians complica ainda mais a situação do time na penúltima colocação no Nacional

LUIZ ANTÔNIO PRÓSPERI, FABIO HECICO, PAULO GALDIERI, LUIZ ANTÔNIO PRÓSPERI, FABIO HECICO, PAULO GALDIERI, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2012 | 03h02

O Palmeiras deu mais um passo decisivo rumo ao rebaixamento. No seu primeiro jogo após a queda de Luiz Felipe Scolari, depois de mais de dois anos, sofreu a 15.ª derrota no campeonato ao cair por 2 a 0 diante do Corinthians, ontem, no Pacaembu. O calvário está chegando ao fim.

Não era muito difícil prever a derrota. Desde a demissão de Felipão, na quinta-feira, se sabia que o time estava marcado para perder mais uma. Bom lembrar que o clássico entre Palmeiras e Corinthians nunca é um jogo comum, mesmo quando um time está em momento melhor do que outro. Quando menos se espera, aparece um herói improvável para reverter a lógica. No caso, ontem, Romarinho transformou o Pacaembu em uma rede de alta tensão.

Até ele fazer o gol, aos 21 minutos, aproveitando falha absurda de Juninho, o jogo estava dentro do enredo. De um lado, um agônico e desesperado Palmeiras e, do outro, um suave Corinthians tocando a bola por inércia quase sem nenhum compromisso.

No plano tático, muita marcação e pouca luz. Os dois times tinham boas propostas de marcação e a ordem era ocupar cada palmo do gramado sem trégua. Estratégias que deixaram o jogo truncado. As faltas se multiplicavam assim como a troca de insultos entre os jogadores. Ambiente propício à confusão.

O estopim estava aceso, faltava a explosão. Quando Romarinho fez o gol o jogo mudou. Irreverente, ele foi rebolar para a torcida do Palmeiras. Luan partiu para cima do árbitro reclamando das ironias de Romarinho e do próprio juiz. Ele indicava que o gol havia nascido de uma falta não marcada de Wallace em Barcos. Marcelo Aparecido, que já havia dado cartão amarelo a Luan, em um lance anterior, optou por amarelar Romarinho e poupar Luan - um erro crasso que custaria caro ao juiz. Quando o jogo se reiniciou ficou claro que o árbitro aguardaria o primeiro deslize de Luan para mandar o palmeirense ao chuveiro. Não deu outra. Luan entrou duro em Guilherme Andrade e foi expulso. O Palmeiras agonizou.

Com um jogador a menos e ainda com a obrigação de esfriar a cabeça e encadear os nervos, o time viu o manto do rebaixamento cobrir o Pacaembu. Tombados, mas não mortos, os palmeirenses até criaram chances de gol, todas inúteis pela falta de pontaria. E assim, desiludidos, foram para o intervalo.

No início do segundo tempo, a tensão saiu do gramado e tomou conta das arquibancadas. A torcida alviverde já não incentivava o time e pedia a cabeça dos dirigentes abusando do vandalismo.

No alto das tribunas, o ex-goleiro Marcos e César Sampaio, dois ícones dos tempos de glória do Palmeiras, tinham o olhar doído, de desilusão com angustiante luta dos jogadores para reverter a derrota parcial.

Os dois ficaram ainda mais acanhados de vergonha quando João Vitor perdeu a bola para Danilo, que deu origem ao gol de Paulinho e liquidou o Palmeiras, logos aos 8 minutos. Se a batalha estava impossível de ser vencida, com dois gols nas costas, um jogador a menos, a camisa beirando uma tonelada, o jeito era correr para mostrar ao torcedor que havia raça em campo.

O Corinthians, convidado inoportuno para o calvário verde, recuou para o seu campo abdicando das ações ofensivas até como piedade do adversário. E ficou ali como observador privilegiado da agonia dos rivais.

Nos últimos 20 minutos o que se viu foi a amargura tomando conta de cada um dos quase 22 mil palmeirenses no estádio, como se fosse um velório a céu aberto até o apito final. E depois a culpa era do Felipão.

Romarinho estava havia oito jogos sem anotar um mísero gol. Já tinha admitido a má fase e quis o destino que desencantasse diante justamente do rival de seu primeiro gol pelo Corinthians. Agora, dos cinco com a camisa alvinegra, três são diante do Palmeiras, em duas vitórias sobre o rival, todas no Pacaembu.

"É, realmente eu dou sorte contra o Palmeiras", festejou, feliz por acabar com o jejum e ganhar mais uma vez o clássico. Foi no jogo contra o Alviverde, no primeiro turno do Brasileiro, que ele ganhou chance para encarar o Boca Juniors na Libertadores e o fez um queridinho da torcida.

Tímido, de poucas palavras, ele atormentou ontem o rival e quase causou uma enorme briga por ter corrido em direção da torcida verde na hora de seu gol, aos 21 da primeira etapa.

Jogadores correram para cima dele e uma briga quase se iniciou. Ele foi retirado do lance, escutou poucas e boas de Barcos e depois pediu desculpa aos palmeirenses.

"Foi um erro meu e peço desculpa para os palmeirenses. Foi pela força do hábito", justificou, já que ali, nos jogos do Corinthians, costuma ficar sua torcida. Ele disse que não percebeu, apesar de ninguém engolir.

De certo é que o garoto de 21 anos jogou bem e explorou as falhas do oponente, nervoso e completamente abatido.

Sem tripudiar. Os jogadores do Corinthians evitaram comentários provocativos ao derrotado Palmeiras. Preferiram exaltar a boa apresentação da equipe.

"Futebol é desse jeito, quando você está mal, tudo dá errado. Graças a Deus fizemos um bom jogo, aproveitamos o nervosismo deles, procuramos marcar bem e aproveitamos as nossas chances", afirmou o meia Danilo, reconhecendo que os palmeirenses estavam um pouco tenso no campo por causa da má fase, na qual a bola bate na trave, como em lance de Marcos Assunção, e não entra, diferentemente da de quem está bem, já que a que sobra para Romarinho bate na trave e entra.

"Nosso objetivo foi realizado, vencemos, fugimos de vez lá de baixo e agora é descansar que semana que vem tem mais", disse o volante Paulinho. / F.H. e P.G.

O clima pesou e, embora os jogadores do Palmeiras tentassem puxar para eles a responsabilidade pela fase do time, a torcida não teve dúvidas em culpar os dirigentes. Roberto Frizzo, vice-presidente de futebol, e Arnaldo Tirone, presidente do clube, foram não apenas xingados pelos furiosos torcedores que deixavam o Pacaembu, mas também ameaçados de agressão física pelos mais exaltados.

A dupla de cartolas só pôde deixar o setor de camarotes do Pacaembu 45 minutos depois que o jogo foi encerrado e, mesmo assim, cercados por seguranças.

Nos minutos finais da partida, alguns membros de organizadas invadiram o setor das numeradas cobertas e tentaram chegar nos camarotes, onde estavam os dirigentes, mas foram coibidos pela polícia. Na confusão, quebraram várias cadeiras do estádio.

No intervalo, Frizzo, que assistiu ao primeiro tempo na numerada coberta, já havia sido muito xingado. Tirone, assustado e sempre cercado pelos seguranças até chegar nos vestiários do Pacaembu, não quis falar.

Já Frizzo tentou mostrar confiança e pedir tranquilidade. "Não é momento nem de se pensar. Tem que ter tranquilidade. Eu compreendo a revolta, mas sou absolutamente contra qualquer tipo de ameaça física. Vamos sair fora disso."

Mas Frizzo não se livrou da violência. Horas depois do jogo, nos Jardins, o restaurante Frevo, de sua propriedade, foi invadido e depredado por homens encapuzados que vestiam a camisa do Palmeiras. Mesas e cadeiras foram viradas e pratos, copos e vidros, quebrados. Ele e Tirone jantavam no local, num espaço reservado, e não foram vistos.

Cabeça baixa. Se a fúria era o sentimento entre torcedores, no elenco o que predominava era o abatimento. O discurso de tentar sair da situação complicadíssima em que o Palmeiras se encontra contrastava com a falta de explicação para mais um tropeço no campeonato.

"Estamos jogando bem, mas o resultado não está vindo. Perdemos por erros nossos. Essa ansiedade de sair da zona está complicando um pouco. Cada um tem que assumir e o grupo assimilar. Porque no inferno a gente já está", disse Maurício Ramos.

Valdivia criticou Felipão. Disse que não esperava que o treinador pedisse para deixar o clube, pois havia prometido ficar até o final. Depois, afirmou que "está difícil" para o time sair do buraco. "Era um jogo que a gente não tinha que perder. A gente nem está pensando em matemática. 'Tá' difícil, mas não vamos parar de lutar nem abaixar os braços. Tem que reverter isso de qualquer jeito, senão vai ser fogo."

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