Torcida ganha jogo?

Respondo já na primeira linha: às vezes, sim. Da mesma maneira que os técnicos de futebol podem eventualmente propor táticas e fazer alterações capazes de mudar o destino de uma partida - ainda que não tão comumente quanto eles imaginam -, o envolvimento da torcida é capaz de mexer com o time dentro de campo a ponto de gerar um sentimento de luta com força para alterar o desfecho de um confronto. O Campeonato Brasileiro do ano passado teve uma saga que exemplificou o que acabo de dizer. Falo da incrível campanha de reabilitação do Fluminense, que precisou vencer praticamente todos os jogos da reta final do campeonato para se manter na elite. Uma trajetória épica que uniu torcida e time até o desfecho apoteótico na batalha do Couto Pereira, na qual o Coritiba, mesmo jogando em casa, foi rebaixado. Curiosamente, logo após o milagre a torcida do Fluminense parece ter desaprendido tudo.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

Na última quarta-feira, quando o Tricolor fazia com o Corinthians uma espécie de decisão antecipada, o público presente ao Engenhão foi decepcionante. A arquibancada cheia de vazios era a prova de que o torcedor do Fluminense esqueceu rápido o quanto a união entre o time e seus apoiadores pode forjar algo poderoso. O "Time de Guerreiros" parece ter virado coisa do passado, justamente numa temporada em que, depois de 26 anos, o Fluminense tem todas as condições de sair da fila no Brasileirão. Já a torcida do Timão, na mão oposta, compareceu em número expressivo, cantou o tempo todo e fez seu time crescer em campo.

Resultado: Corinthians 2 x 1 e, noves fora, mais do que a vitória, a sensação de que o momento é mais alvinegro do que tricolor. E aqui é impossível não estranhar a incoerência desse ser complexo chamado torcedor.

Os tricolores, que não abandonaram um time apontado pelos matemáticos com 99% de chances de ser rebaixado, parecem ter abandonado uma equipe que lidera a competição em pontos acumulados, além de ter o ataque mais positivo, a defesa menos vazada, o melhor saldo de gols, o maior número de vitórias e, desde quarta, o artilheiro isolado da competição. O time que construiu tal campanha vem sendo impiedosamente vaiado por sua torcida, a mesma que não abandonou o elenco que só fez perder em dois terços da temporada passada. Alguns tricolores ponderam que o Engenhão não é o Maracanã e que o jogo de quarta começou tarde, às 22 horas. Não é por aí. O Engenho de Dentro, até onde me recordo, fica no Rio. E deve ser mais perto da zona sul, tradicional reduto tricolor, do que de São Paulo, de onde partiram bravos 5 mil corintianos.

Certos estão os fanáticos do Timão, o tal bando de loucos que já deu inúmeras provas de apoio ao time, não apenas numa fase ruim, mas em todas as fases ruins. Já a torcida do Flu, não consegue colocar o amor ao time acima da aversão à zona norte. O jogo foi às 22 horas? Eu já vi o Maracanã lotado em jogos às 21h50. O Engenho de Dentro é longe da zona sul? Ora, não há tricolores na zona norte? Os tricolores da zona sul são incapazes de encarar um trem, de rachar um táxi, de compartilhar o carro com os amigos para ganhar um título? Num campeonato tão equilibrado, isso pode fazer diferença. Bem como as vaias e perseguições a determinados atletas, não só nas derrotas, mas em vitórias, como vimos no 3 x 1 do Flu sobre o Ceará. Na quarta, sobrou até para Deco, um jogador refinado, de enorme talento. Nem sequer deram um desconto para o fato de o time vir atuando há várias jogos sem seus dois volantes e seus dois atacantes. Triste.

Arrisco um palpite: se a torcida do Flu lotar o Engenhão contra o Flamengo e apoiar seu ótimo elenco, o clube será favorito ao título. Mas se as vaias e as arquibancadas vazias prevalecerem, Corinthians e Cruzeiro é que decidirão o título.

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