Torcida reprimida

O futebol se tornou o esporte mais popular do mundo por estar associado a emoção, alegria, criatividade, irreverência. E por ser, em muitas situações, única maneira de manifestação popular e democrática. Mas há onda de conservadorismo, sobretudo por aqui, que se empenha em transformá-lo em atividade insípida, triste, contida. É um tal de não pode isto, não pode aquilo, tal coisa não se faz, determinada atitude pega mal, que a espontaneidade vai para o vinagre. Sem contar as reações de autoritarismo explícito, que fariam corar de vergonha e pudor os censores da ditadura na era Vargas ou a dos anos 1960/70.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2012 | 03h03

O que não faltam são fiscais da moral e dos bons costumes. O árbitro Leandro Pedro Vuaden resolveu tomar as dores de todos os colegas de atividade, ao se recusar a dar início ao jogo de ontem à noite, entre Náutico e Atlético-GO, enquanto não fosse retirada das arquibancadas do estádio dos Aflitos, no Recife, uma faixa que considerava ofensiva.

O crime cometido por um grupo de torcedores da equipe pernambucana foi o de expor o seguinte pensamento: "Não irão nos derrubar no apito". Essa a maneira, pacífica, de protestar contra decisões que entendem como danosas para a equipe deles, incluída no bloco daquelas que correm risco de rebaixamento. Referência ao erro grotesco cometido, na semana passada, quando não se marcou pênalti acintoso sobre Kim, nos minutos finais do duelo com o Fluminense. O Náutico perdeu por 2 a 1.

Pois bem. Vuaden ficou plantado no meio do campo e dizia que só começaria o jogo se o cartaz fosse recolhido. Provavelmente tomou como respaldo itens do Estatuto do Torcedor e do Regulamento Geral de Competições (da CBF) que restringem o uso de inscrições que possam ser interpretadas como ofensivas, racistas ou xenófobas. A primeira triagem cabe à Polícia Militar. A segunda, teoricamente, pode ser feita pelo árbitro.

O problema: como mensurar o grau de agressividade ou de incitamento de uma faixa como a da torcida do Náutico? Não há parâmetros objetivos, científicos, jurídicos até, para definir que tal comportamento fosse promover violência ou representava coerção à liberdade do juiz. Além disso, quem garante que Vuaden era o alvo da ação? E outra, mais: qual o nível de preparo de Sua Senhoria para determinar o que pode ou não fazer o torcedor? E onde vai parar a Constituição, que defende o direito de livre pensamento de qualquer cidadão?

Pior do que o bafafá foi o desdobramento do episódio. Depois de esperar quase 20 minutos para começar o jogo, Vuaden fingiu não ver que a faixa voltou a ser estendida pelos torcedores, já com a bola a rolar. Como se dizia em outros tempos, ficou muito pior a emenda do que o soneto.

Para deixar a coisa mais feia, ele ainda deu pênalti para o Náutico, em lance em que Rhainer simulou ter sido atingido. Quer dizer, se pretendia driblar a pressão, acabou sendo tragado por ela (o Náutico ganhou por 2 a 0). Teria sido melhor ficar quieto, ignorar os torcedores e fazer trabalho bem sereno. Os juízes, infelizmente, têm sido mais protagonistas do que os jogadores. Algo está errado, não é?

Lusa valente. A Portuguesa continua a complicar a vida de muita gentegraúda no Brasileiro. Quem suou um bocado, na noite deste sábado, foi o Atlético-MG, que se conformou de sair do Canindé com empate de 1 a 1. O resultado deixa o time paulista em situação apenas intermediária e foi ruim para os mineiros, que perdem fôlego na corrida pelo título de 2012.

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