Transferência de editoria

Desde garoto era fanático por esporte, em especial futebol. Claro que seu primeiro sonho era ser jogador. Bastaram, porém, algumas partidas na quadra da escola para se convencer de que, se quisesse ficar perto de seu esporte predileto, deveria optar por outro caminho. Acostumado a acompanhar vorazmente o noticiário esportivo, gradativamente passou a admirar o estilo de vários jornalistas. Tinha descoberto sua vocação: jornalismo esportivo.Os pais desejariam que ele se inclinasse para o marketing, tinha até um primo que ganhou uma verdadeira fortuna dedicando-se ao marketing político. Mas ele insistia no jornalismo esportivo e a família acabou se conformando. Para alcançar seu sonho soube que precisava fazer obrigatoriamente um curso universitário. Passou noites em claro para enfrentar um vestibular concorridíssimo, mas essa dificuldade, por outro lado,solidificou a convicção de que tinha escolhido uma das carreiras da moda. Só não entendia bem a razão do curso, pois se achava perfeitamente preparado para enfrentar as dificuldades da profissão sem o auxilio de qualquer escola. Mesmo antes de entrar na faculdade já sabia tudo sobre os principais times, sobre suas estruturas, suas torcidas, tudo. Era uma verdadeira jovem enciclopédia. Não lhe escapava nada. Datas, esquemas, táticas e as mais modernas conquistas da técnica no campo esportivo. Embora natural do país com o maior número de títulos mundiais, como candidato a profissional "de ponta", sabia que era preciso prestar reverência ao que acontecia no exterior. Para isso equipou-se de dados precisos até sobre o futebol do Timor Leste e de Sumatra. E não era só informação acumulada. Havia também talento. Tentava escrever bem e às vezes deliciava-se com a qualidade de seu texto, um misto de informação precisa, clareza e objetividade. Sabia que havia mestres na especialidade e estava constantemente a lê-los. Dormia com um exemplar de À sombra das chuteiras imortais, de Nelson Rodrigues, sob o travesseiro.Ao sair da faculdade viu que a vida não era tão fácil. Mas, ao contrário da maioria de seus colegas de turma que foram fazer outra coisa na vida, esforçou-se para realizar seu sonho. E aconteceu. Um dia foi admitido no Estado de S. Paulo! Sim, no caderno de Esportes do grande jornal. Passada a primeira euforia começou a perceber que, de perto, as coisas eram um pouco diferentes. Viu que sua atitude, que se traduzia apenas em amor ao esporte em si, não significava mais grande coisa no universo do futebol. E, portanto, nem no noticiário. Na semana do outrora grande clássico Corinthians e Palmeiras, empregou toda sua energia não opinando na análise das equipes, nas possibilidades de cada uma, mas sobre Dualib, câmeras escondidas, notas obscuras, Ministério Público, as possibilidades de longa suspensão para Luxemburgo e suas acusações a árbitros, a CBF que não perdoa juízes acusados de armação, e de quebra o uniforme do São Paulo que Adriano não vestiu, o que - Deus nos livre! - poderia desagradar o patrocinador e até, por último, mas não por derradeiro, a ameaça de morte ao presidente do Guarani. Desanimado com tudo isso o futuro grande jornalista esportivo decidiu conversar seriamente com seu editor, Antero Greco. Vai pedir transferência para o caderno Metrópole e se dedicar ao crime propriamente dito.

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