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Treino é treino?

Alguns lances selecionados pela TV dos últimos treinos da seleção brasileira me deixaram arrepiado. Nunca tinha visto, em treinamentos, divididas, entradas e disputas como essas. É inacreditável que, sob o beneplácito, senão o incentivo, de seu treinador, jogadores se lancem imprudentemente no encalço uns dos outros transformando um treino em partida. Não por outra razão Neymar acabou deixando o treino contundido e amparado para andar.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2013 | 02h05

Por que essa demonstração de força absolutamente desnecessária? Para fomentar a disputa pelas posições? Para aumentar o "comprometimento", uma dessas palavras mágicas que de vez em quando aparecem sem que ninguém se detenha em averiguar o que exatamente significa?

O futebol, assim como o esporte em geral, está se tornando arena de combate. Estamos assistindo aos gladiadores da nossa época, tão politicamente correta quanto hipócrita. Há um velho filme americano que já previa isso, lá pelos anos setenta. Mas parecia, naquele tempo, ficção cientifica. A ciência entrou em cena para transformar o esporte. Não me venham dizer que a força física e longevidade espantosa dos jogadores de hoje se devem a treinamentos. Isso é impossível pelo simples fato de que hoje é impraticável treinar nos clubes: joga-se um dia depois do outro. A força e a longevidade se devem a preparados químicos, a energéticos de todo o tipo, a substâncias injetadas que dão ao ser humano o que lhe nega a natureza.

Agora são comuns carreiras que chegam facilmente aos 37, 38, até 40 anos. É normal isso? Não estamos forçando a barra? Um homem de 38 anos pode correr como um garoto de 20? Ninguém se admira mais da idade de um jogador. A palavra veterano, tão temida alguns anos atrás, é hoje pouco empregada. Estamos aceitando ir além das forças, sempre além, como nos recordes das Olimpíadas, sempre superados. Até quando?

Tirando as palavras grosseiras, desleais e arrogantes do presidente do Atlético Paranaense a respeito de Paulo Baier, com toda a consideração que o jogador merece, pergunto: até quando ele pretende jogar? Sei que é difícil um jogador decidir parar quando tem à disposição um arsenal de medicamentos que parecem preservá-lo. Mas o que acontece quando esse jogador atinge 45, 50 anos, ninguém sabe nem pretende saber. Quanto essa longevidade vai lhe custar no futuro não interessa a ninguém. Mas talvez custe caro.

Volto a esse treino da seleção. Se um treino é isso, imagine-se um jogo. Nunca vi tantas contusões graves como atualmente. Todos os clubes têm jogadores fora, e essas ausências são em geral prolongadas. Jogadores são caçados em campo. Sim, Neymar se atira no chão toda a hora. Mas essa é também uma frase que se repete e que serve para justificar derrotas. Na maioria das vezes ele é mesmo derrubado, da forma mais visível e os árbitros ignoram, punindo exatamente o jogador massacrado.

Valdivia é outro exemplo. Jogador malandro, é claro, que simula algumas vezes. Mas na maioria dos casos é agredido impiedosamente. Isso acontece com Montillo, com D'Alessandro, com o Ronaldo Gaúcho, etc.

Nunca vi tanta gente demorando a voltar, tanta gente jogando com a cabeça enfaixada, tanta gente mancando pelo campo, tanta correria. Outro dia vendo Corinthians e Atlético Paranaense fiquei sem fôlego só de assistir. Quase eu mesmo tomei um energético para me revigorar. É impossível correr tanto. É desumano e absurdo. E estou falando dos dois lados. A bola fica mais tempo no ar que no chão, porque ela é disputada aos pontapés. É isso o futebol? Para que serve um treino? Para aprimorar fundamentos, como queria o Telê? (Ah! Desculpem, esqueci que não há mais treinos, não há tempo para eles). Ou servem para estimular a disputa por um lugar no time custe o que custar?

Vai longe a época em que se repetia a célebre frase do mestre Didi: treino é treino, jogo é jogo.

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