Tribunal de Londres julga a aventura amorosa de Mosley

Caso do presidente da FIA é visto como um dos mais bizarros na jurisprudência britânica

John F. Burns, The New York Times, Londres, O Estadao de S.Paulo

11 de julho de 2008 | 00h00

Há momentos em que parece ser uma sátira britânica no melhor estilo anárquico do grupo Monty Python: um juiz e uma banca de advogados, todos imponentes com suas perucas de crina de cavalo, explorando os pontos mais minuciosos de espancamento de nádegas com um multimilionário idoso e várias mulheres jovens que se reuniram com ele num flat em Chelsea, no último inverno. Tudo por um honorário de U$ 5.000, pelo que foi descrito como cinco horas de um jogo de "fantasia" sadomasoquista.O edifício da Real Corte de Justiça já testemunhou muitos julgamentos bizarros em seus 126 anos de história, mas o que está em curso no Tribunal 13 - o caso de Max Mosley contra The News of the World - poderia reclamar a condição de o mais incomum em qualquer ranking.Quando é que um tribunal pode ouvir uma explanação sobre os prazeres de se deixar espancar por uma mulher especializada em jogos de fantasia sexual, dando risadinhas enquanto comparava levar 12 lambadas na nádega com a alegria de terminar uma maratona? E quantos tribunais foram brindados, como esse, com uma fita de áudio apresentando o que um dos tablóides que está refestelando-se com o julgamento, The Daily Mail, descreveu como "os sons de palmadas e pancadas" durante a sessão em Chelsea?Boa parte das testemunhos até agora se concentrou num aspecto da "festa" que transformou um escândalo sexual comum em algo bem mais contencioso: se a temática do evento era um campo de concentração nazista, como foi alegado pelo tablóide que estampou um relato dele em sua primeira página em março, ou, como os participantes dizem, uma ocasião em que o uso de comandos guturais em alemão, uma velha jaqueta da Luftwaffe e quepes e botas de estilo militar não tinham nada a ver com fantasias nazistas.Somando-se ao improvável, o julgamento foi provocado pelo homem que pagou pela sessão sexual, o esbelto, garboso e eloqüente Mosley, de 68 anos. Seja por ousadia ou tolice, como o julgamento poderá determinar, ele está movendo uma ação por perdas e danos contra o tablóide que publicou a história e a ilustrou com um vídeo do escampamento filmado secretamente que, segundo o advogado de Mosley, foi visto 3,5 milhões de vezes no website do jornal e no YouTube.Mosley passou a maior parte de sua vida sob a luz dos holofotes, voluntária ou involuntariamente. Como ele declarou em juízo, descrevendo como algo que "pendeu" sobre ele por toda sua vida, é filho de um renomado fascista da Grã-Bretanha de antes da Segunda Guerra Mundial, Sir Oswald Mosley, e de sua mulher, Diana, que teve Hitler como convidado de honra em seu casamento secreto em Berlim, em 1936. No que lhe diz respeito, depois de uma breve carreira como advogado e piloto de corrida de segunda linha, Mosley é o presidente da Federação Internacional de Automobilismo, cabendo-lhe supervisionar os esportes motorizados internacionais, incluindo a F-1.Diferentemente de muitos personagens famosos apanhados em aventuras sexuais embaraçosas, Mosley optou pela luta. Apesar da condenação dos poderosos fabricantes de automóveis que investem na Fórmula 1, ele se recusou a deixar o cargo na FIA que ocupa há 14 anos. Passou a perna numa galáxia de adversários, dentre eles as maiores associações de automobilismo do mundo, incluindo a American Automobile Association, arregimentando o apoio de uma legião de associações de automobilismo menores do mundo em desenvolvimento. Elas lhe deram uma voto de confiança, 103 a 55, numa votação sobre a crise na FIA no mês passado.A jogada não surtiu efeito já que ele foi evitado pelos dirigentes de vários países que recebem as corridas de Fórmula 1, incluindo, para seu embaraço, já que ele reside lá, o de Mônaco, cuja corrida, a jóia da coroa da F-1, ocorreu há seis semanas. Mas a grande jogada está se desenrolando em juízo. Ali ele está tentando fazer história com uma ação indenizatória que busca estabelecer um novo marco na Grã-Bretanha para o direito de privacidade individual contra intrusões da mídia noticiosa, particularmente dos virulentos tablóides britânicos, notórios por sua perseguição implacável de celebridades.Ao argumentar que The News of the World era culpado de uma "intrusão vulgar e dispensável", ele falou candidamente ao tribunal de sua paixão de 45 anos pelo sadomasoquismo. Mosley admitiu ter dado às cinco mulheres envolvidas o equivalente a cerca de U$ 70 mil a fim de alugar o flat em Chelsea para sessões regulares e ofereceu, na segunda-feira, uma defesa insistente de seu passatempo. Longe de ser depravado, disse que o sadomasoquismo era "uma atividade perfeitamente inofensiva desde que entre adultos em comum acordo que queiram praticá-lo, tenham a mente saudável, e que a prática seja privada."Sua esposa de 48 anos não conhecia suas inclinações sadomasoquistas. "De forma que a manchete no jornal foi devastadora para ela, e não há nada que eu possa dizer para reparar isso", comentou ele.Quanto às alegações do jornal de que Mosley pediu uma temática nazista, ele disse que poderia pensar em "poucas coisas menos eróticas que um jogo de papéis nazista", acrescentando: "Durante toda minha vida, pendeu sobre mim meus antecedentes, meus pais, e a última coisa que eu quero fazer em algum contexto sexual é lembrar disso."Na terça-feira, ele foi apoiado por quatro das cinco mulheres envolvidas, que tiveram direito ao anonimato conferido pelo tribunal e cada uma apresentando o sadomasoquismo como algo perfeitamente normal. Mosley testemunhou na segunda-feira que os espancamento que sofreu na sessão tiraram sangue, mas disse que pessoas envolvidas em espancamentos freqüentes desenvolvem uma pele sensível que "sangra muito facilmente."Uma das mulheres envolvidas na sessão em Chelsea, identificada somente como Miss D e apresentando-se no tribunal como estudante de doutorado de uma universidade britânica, disse que ser espancado "não é com certeza a xícara de chá para todo o mundo", mas para ela era desfrutável. A mulher, que parecia ter pouco mais de 30 anos, acrescentou: "Prefiro mais isso a ir ao dentista."As quatro mulheres negaram que havia uma temática nazista, mas numa transcrição da sessão sexual apresentada em juízo, uma mulher envolvida pôde ser ouvida dizendo em inglês: "Mas nós somos a raça ariana, as loiras."A principal organizadora, identificada como Miss A, uma loura esbelta de cerca de 30 anos, disse que a idéia de uma sessão com temática de prisão originou-se de uma fantasia de Miss D sobre ser interrogada por estrangeiros. Ela disse que a ocasião recebera uma temática alemã porque Mosley falava alemão e uma das mulheres era alemã. "Não foi absolutamente um evento com temática nazista", explicou ela.Mas uma notícia extrajudicial sugeriu que alguma coisa ainda não levantada nos depoimentos - a preocupação do juiz com o aparente exclusão, no computador de Mosley, de algumas mensagens de e-mail a participantes da sessão que podem ser relevantes para o caso - poderia se mostrar crucial para resolver a questão.O juiz, Sir David Eady, ouviu de rosto impassível, dando sinais ocasionais de impaciência. Mas o jornal londrino The Times sugeriu no mês passado que Mosley pode ter encontrado um ouvido simpático. O juiz, diz o jornal, estava "criando quase sozinho uma nova lei de privacidade" com uma série de julgamentos demarcadores contra jornais em casos de difamação e invasão de privacidade.

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