Tricolor Madrid

Anemia técnica, debilidade tática, falta de solidariedade e descompasso político. No São Paulo e no Real Madrid os problemas podem ser os mesmos, assim como suas causas e consequências. Respeitadas as grandezas e diferenças orçamentárias, fracasso é fracasso, não pode ser maquiado.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

16 Março 2015 | 02h04

O São Paulo impressiona pela sua passividade. Nos momentos críticos, com a confiança da equipe abalada, algumas demonstrações de comprometimento são importantes, com o grupo e com o clube. Pode ser um carrinho, uma dividida, um gesto que funcione como estímulo e prova de coragem.

A segunda posição no Campeonato Brasileiro do ano passado não foi comemorada, mas deveria ter preservado seus pontos positivos para conduzir o trabalho no início de 2015. Com o desmanche do Cruzeiro, o São Paulo parecia ser o time brasileiro mais bem encaminhado na disputa da Libertadores.

A saída de Kaká é uma das explicações para a queda de rendimento, não todas. Longe dos indicadores estatísticos, ele contribuiu para melhorar o futebol de muitos companheiros. Pela qualidade no campo e pelo exemplo.

Os números são importantes, mas não mostram o todo. Quando o debate é o alcance humano, a curta volta de Kaká deve ser analisada dentro de outra perspectiva. Em pouco tempo, foi respeitado e reverenciado por seus colegas, uma celebridade do mundo do futebol que só fez bem ao São Paulo, mesmo sem o time conseguir entrar para valer na competição pelo título brasileiro.

Três meses depois, nota-se um retrocesso na construção da equipe. Pela perda técnica de um jogador tão importante e, principalmente, pelo desaparecimento daquele caráter competitivo que Muricy Ramalho começava a implantar.

O que se vê hoje é uma equipe com pouca gente disposta a entender a importância do sentido coletivo do jogo, além dos benefícios individuais que ele poderia proporcionar. O time marca mal, movimenta-se pouco e recupera para o debate as questões de sempre, como o valor de Paulo Henrique Ganso.

Talvez a situação do Real Madrid sirva de alívio para o torcedor são-paulino. Reclama-se mais participação coletiva de Gareth Bale, que volte e marque como mostrou ser capaz na trajetória da conquista da Champions. Garantido pelo presidente do clube e respaldado por seu custo milionário, o jogador faz o que quer, quando quer.

Enquanto isso, os problemas táticos se acumulam. Na semana passada, o Schalke 04 venceu os merengues, em Madri, por 4 a 3, mesmo com o trio BBC em campo. A vitória do time alemão foi o resultado da dedicação ao modelo de jogo bolado por Roberto Di Matteo.

A movimentação do Schalke 04 serve de exemplo para o Real Madrid e para o São Paulo. O time simplesmente queria jogar, e só não se classificou para as quartas de final da Champions porque na partida de ida respeitou demais o adversário, culpa do mesmo treinador e dos mesmos jogadores que revolucionaram a volta.

Muricy, a exemplo de Carlo Ancelotti no Real Madrid, parece abatido. Talvez ainda não tenham perdido a confiança, mas acreditam que, além de boas ideias, precisam de jogadores dispostos ao sacrifício, a correr mais, a ocupar os espaços, incomodados e não acomodados no sofá da crise.

Não existe uma única explicação para o rendimento, seja ele bom ou ruim. A complexidade do resultado só começará a ser desvendada se os jogadores quiserem. Na Espanha, no Brasil ou na China. Não será um comunicado da diretoria que colocará a casa em ordem.

Em Madrid, o presidente Florentino Perez preferiu contornar a crise por meio de entrevista coletiva, mas sem convencer. Da mesma forma que ajuda quando abre a carteira, o cartola espanhol atrapalha quando abre a boca.

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