Imagem Reginaldo Leme
Colunista
Reginaldo Leme
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Triste inauguração

Não existe nada de agradável no reencontro da Fórmula 1 menos de uma semana depois de um acidente gravíssimo que mantém um dos 22 pilotos do grid em estado crítico. Mas o novo autódromo de Sochi, sudoeste da Rússia, ajudado pela temperatura de 22 graus e céu aberto, o oposto do quase sempre sisudo Suzuka, traz de volta a impressão de segurança que a F-1 nos passou nesses últimos 20 anos sem viver um trauma desses. Cercada pelas montanhas do Cáucaso, nevadas a qualquer época do ano, e banhada pelo Mar Negro, Sochi fica dentro do parque construído para receber a Olimpíada de Inverno este ano e, portanto, é moderno, funcional, e até a pista, numa raridade entre as projetadas por Herman Tilke, tem um desenho interessante. Eu já cheguei à conclusão de que o Tilke acerta quando lhe dão uma área grande para trabalhar. Foi assim, por exemplo, com a pista da Turquia. O circuito de Sochi tem 5.848 metros de extensão, e só fica atrás de Silverstone (5.891) e Spa-Francorchamps (7.004). E por isso tem boas retas e curvas velozes.

Reginaldo Leme, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2014 | 02h05

São 18 curvas (seis à esquerda e 12 à direita) que, nos últimos meses, foram percorridas virtualmente pelos pilotos centenas de vezes nos simuladores, e em pelo menos 50 voltas reais ontem no primeiro dia de treinos livres. Por mais que se treine no simulador, o resultado na pista depende muito do tipo de asfalto, com mais ou menos aderência, colocação e altura das zebras, além das condições climáticas, especialmente temperatura e velocidade do vento, já que se trata de um circuito ao nível do mar e, portanto, a pressão atmosférica é previamente conhecida. Quando se anda em uma pista desconhecida, há sempre aqueles que pegam o jeito mais rápido, especialmente na forma de lidar com os pneus. Também se sabe que um piso novo muda bastante durante os treinos graças ao amadurecimento do próprio asfalto, que tem na sua composição uma quantidade de óleo que favorece a acomodação dos componentes.

Na combinação de curvas de baixa e alta, há trechos bem técnicos. Não foi por isso que Hamilton disparou na frente, enquanto Rosberg duelava com McLaren e Ferrari. A explicação é que a Mercedes usou dois caminhos diferentes neste primeiro contato com o circuito e o que foi adotado no carro do alemão não funcionou. Mas hoje os dois lutam pela pole, item no qual Rosberg ainda está na frente de Hamilton (8 a 6). Ele também liderou mais no ano - 400 voltas, contra 362 de Hamilton. Mas o inglês ganha bem no que mais conta, que é o número de vitórias (8 a 4). Graças a isso, é líder do campeonato. Independentemente da briga entre os dois, a Mercedes deve garantir neste domingo, com três corridas de antecedência, o seu primeiro título de campeã no Mundial dos Construtores. Ela só precisa marcar mais 25 pontos. Na década de 50, quando a Mercedes teve equipe na F-1 e conquistou o bi com Juan Manuel Fangio, ainda não existia o Campeonato de Construtores (criado em 1958).

A F-1 segue seu curso normal inaugurando um novo GP, mas os erros cometidos em Suzuka que poderiam ter evitado o acidente de Jules Bianchi não serão esquecidos. É inaceitável ver trator e comissários em operação de resgate do carro de Adrian Sutil sem Safety Car, assim como a bandeira verde agitada antes e até depois do acidente de Bianchi dá uma demonstração de total despreparo dos comissários. Os comissários devem passar por treinamentos exaustivos, inclusive com simulações de acidente e resgate, que já vi tantas vezes em Interlagos. Além do trator na hora errada, pela falta do Safety Car, há um erro primário na colocação dos guardrails naquele ponto, formando o que se chama de "agulha". O certo, nos pontos em que precisa haver uma passagem de fuga para entrada de socorro ou retirada de um carro acidentado, é um guardrail se sobrepor ao outro horizontalmente. Ali, se não houvesse o trator, Bianchi passaria entre as duas colunas de guardrail. A falta de luz e o excesso de chuva eram motivos para a corrida ter sido encerrada no acidente de Sutil. Pilotos da geração atual ainda não tinham passado por isso. Da geração de 94, só frequentam os paddocks os que trabalham como consultores ou fazem parte de equipes de televisão (Jean Alesi, David Coulthard, Damon Hill, Johnny Herbert e Martin Brundle).

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.