Troca de gentilezas

Impressiona o comportamento involuntariamente cavalheiresco dos times que brigam pelo título. Falta uma rodada para o término do turno e nenhum dispara. Ou melhor, não há quem tenha vocação para distanciar-se. Porque oportunidades aparecem, para Corinthians, Fla e São Paulo, que desde o começo se revezam no topo. E eles as desperdiçam. Até o Vasco, em ascensão vigorosa, dá suas mancadas, como o 1 a 1 com o Fluminense no início da noite.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2011 | 00h00

O fim de semana foi um festival de erros. Os alvinegros de Tite de novo pisaram na bola, como tem sido corriqueiro de uns tempos para cá, e no sábado entregaram três pontos para o Figueirense, num Pacaembu lotado e sob chuva fina. Abriram mão, com o revés de 2 a 0, de ser campeões da primeira parte.

A retribuição veio ontem por seus perseguidores diretos. Resta a sensação de ficaram constrangidos de estorvar o líder e se contentaram com empates. Avançaram um tiquinho, mas não deram o bote. Por educação?

Ironia à parte, os resultados recentes mostram que não há esquadrões na Série A. Com qualidades aqui e falhas acolá, existem mais semelhanças do que diferenças no pelotão de elite. A oscilação parece marca registrada de todos, e fica claro que eram ilusórios episódios como o do Corinthians com eficiência superior a 90% no início. Como acontece nos últimos anos, a tendência é de a definição surgir nos capítulos derradeiros.

O São Paulo expôs fragilidades no 1 a 1 com o Palmeiras, o terceiro empate consecutivo. O técnico Adilson Batista não quis arriscar-se e apelou para composição com três zagueiros e dois marcadores (Wellington e Carlinhos Paraíba). Um considerável bloco defensivo para brecar um rival tradicional, mas que tem amargado penúria de gols. Luan, com chutes esporádicos, Kleber distante da área - e, mais tarde Maikon Leite só na correria -, não deveriam botar medo em quem estava de olho na liderança.

E do Palmeiras não há muito o que esperar: a intenção é rondar o G-4 (que fica mais longe) e, se aparecer brecha, encostar. O torcedor palestrino que não se iluda: não há obsessão por chegar firme na ponta. Que nada! Se sobrar uma vaguinha na pré-Libertadores, está ótimo. Senão, vai de Sul-Americana mesmo.

Como São Paulo e Palmeiras não estavam com apetite para o ataque, Marcos e Rogério apareceram pouco (um par de boas defesas para cada um) e o clássico só não foi tão gelado quanto o clima na cidade graças aos dois gols - o de Dagoberto, uma obra-prima. A propósito: na crônica de ontem escrevi que, se apostasse na Loteca, cravaria empate. Palpite infelizmente certo, para duelo frustrante.

O Flamengo foi ao Sul ainda atordoado com os 4 a 1 sapecados pelo Atlético-GO e ficou evidente o quanto depende de Ronaldinho. O astro gaúcho fez um belo gol de falta e deu vários passes de qualidade. Na etapa final, cansou - e, ato contínuo, o Fla perdeu a magia.

Quem sabe, sabe. O penta mundial Sub-20, conquistado na noite de sábado na Colômbia, é a enésima demonstração da excelência da escola brasileira. Não se trata de obra do acaso, sorte ou desejo dos deuses. Por mais que a gente torça o nariz para coisas erradas e enxergue defeitos, aqui é fonte inesgotável de jogadores, no mínimo bons de bola. Não foi por coincidência que, em 18 edições do torneio disputado desde 1977, o Brasil tenha ficado ainda três vezes em segundo lugar (1991, 95, 2009) e três em terceiro (77, 89 e 05).

Outra seleção vencedora é a Argentina, com seis títulos, um terceiro e um quarto lugares. Por isso, não é exagerada a fama que atletas desses dois países têm no mercado internacional. O sul da América é a região mais pródiga na revelação de talentos. Os europeus sabem disso há um século.

Na conquista do penta, merecem aplausos os rapazes e a comissão liderada por Ney Franco. Méritos também para Mano Menezes por ter indicado o "professor". Uma safra boa e, se for mantida a tradição, alguns estarão na Copa de 14, quem sabe para seguir os passos de outros campeões do mundo nas duas categorias. Em 1983, Jorginho, Dunga e Bebeto estavam no time vencedor no México. Onze anos mais tarde, jogaram na campanha do tetra nos EUA.

A maioria terá trajetórias normais, umas mais outras menos bem sucedidas, como acontece em toda atividade profissional. Com a vantagem de terem no currículo medalha de ouro em Mundial. Troféu inesquecível.

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