Trocando em miúdos

Biografias de vencedores merecem respeito. A de Rivaldo é especial, pois se trata de craque, melhor jogador do Brasil no Mundial de 1998 e fenomenal em 2002 na conquista do penta. Mas a trajetória dele está abalada no São Paulo e fica um ponto de interrogação em torno de seu futuro no Morumbi em 2012. Na entrevista que concedeu a Eduardo Maluf, e publicada na edição de ontem, Juvenal Juvêncio mostrou desalento com o desempenho do astro, "que já não é o mesmo". Nem poderia, pois o tempo passa.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2011 | 03h06

O dirigente usou Rivaldo para ilustrar falhas que Adilson teria cometido e que contribuíram para arrasar sua avaliação no clube. Juvêncio considerou inoportuno o aproveitamento frequente do meia-atacante, que já não rende tanto quanto alguns anos atrás. Ou seja, sutilmente passou o recado para o substituto - serve para o interino Milton Cruz - de que Rivaldo será mais banco e menos campo.

Sugestão diversa daquela feita meses atrás, ao retornar de Florianópolis, após a eliminação para o Avaí, na Copa do Brasil. Na ocasião, lamentou que Paulo Cesar Carpegiani, demitido semanas mais tarde, tenha preterido a experiência em duelo decisivo para a equipe. O atleta experiente e escanteado, no caso, era Rivaldo, que andava às turras com o ex-treinador e amuado por mofar na reserva.

São situações diferentes, pode alguém sugerir, à maneira de Juvêncio. O camisa 10 então era imprescindível, agora nem tanto. Mudança de avaliação rápida. Só que Rivaldo continua o mesmo, embora em abril tenha virado o velocímetro de 38 para 39 anos. Desde que desembarcou no São Paulo se percebeu que não tinha pique para partidas inteiras. Muitos erraram na avaliação: Carpegiani por ser teimoso e ignorá-lo com acinte, Adilson por temer a torcida e usá-lo além da conta, o próprio Rivaldo por se achar ainda um garotão, e o presidente por pender ora em favor do jogador, ora contra.

Faltou bom senso. Não se deve neste momento abrir mão de delicadeza com um boleiro extraordinário, porém badalado aquém do que merecia, talvez por seu temperamento introvertido. Ao convidá-lo a fazer parte do elenco, Juvêncio sabia que chamava um profissional em fim de linha. Ou imaginava que Rivaldo desfilaria fôlego dos tempos mágicos de Palmeiras e Barça? O administrador calejado não se trairia pela ingenuidade.

Essa incerteza revela que o São Paulo está em busca do norte, e já faz um tempinho. Escrevi ontem que sofre de "Mal de Muricy", por não se livrar da nostalgia das glórias recentes obtidas sob comando de um treinador rifado no Morumbi e nunca esquecido. Faz dois anos que anda à procura de sucessor, sem encontrá-lo. Atira para todo canto e não acerta.

A oscilação atual custou o emprego de Adilson e de certa forma respinga no ídolo. O presidente garante que não o descarta de antemão para o próximo ano. Pelo sim, pelo não, se fosse o Rivaldo começava seriamente a pensar em pegar o boné e cuidar da vida em outra freguesia. Como também é cartola, poderia divertir-se no Mogi Mirim antes de pendurar as chuteiras de vez.

Taí outro ponto melindroso e muito íntimo: cada um deve saber a hora de parar. E essa é decisão difícil, sobretudo para quem se acostumou desde cedo com holofotes. Rivaldo é estrela de primeira grandeza e não pode virar lembrança de si mesmo. Será um pecado mortal, se isso vier a acontecer. Mas há risco. Ainda mais quando pairam no ar versos de Trocando em miúdos, obra-prima de Chico e Francis Hime: "Uma saideira, muita saudade, e a leve impressão de que já vou tarde."

Lá vem o Bota! O Brasileiro mais doido dos últimos tempos pode ter novo líder na noite de hoje. O Botafogo só depende de seu talento para saltar à frente de Flamengo, Vasco e Corinthians. O risco está no adversário, o Santos, tão imprevisível quanto a competição. O campeão da América cambaleia mais que bebum na descida da ladeira, mas às vezes apruma o passo, ergue a cabeça e surpreende.

Cabe a Renato, Herrera, Loco Abreu, Elkeson, Cortês e grande elenco não se deixarem envolver. O Botafogo faz campanha acima do previsto e uma vitória agora representará pitada bem-vinda de confiança na reta final. Só que tem muita gente secando. Quem sabe o Caio Júnior não complementa as explicações com um raminho de arruda para cada jogador colocar atrás da orelha. Bom prevenir; vai que esse negócio de mau olhado funciona... E superstição cai bem no Bota.

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