Turma da pá virada

Tem gente que vive a queimar neurônios para bolar algo novo e lucrativo, de preferência para gerar riqueza e fama. Pois ganhará dinheiro a rodo, sem loteria ou mutreta, e será visto como gênio quem descobrir a fórmula para brecar o Barcelona. Não vale poção para derrota eventual do supertime catalão. Tem de ser algo que amarre pra valer Messi e seus súditos. Porque essa turma é da pá virada, anda com a macaca, está impossível.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2011 | 03h01

O Barcelona encanta e engana. Deixa admiradores extasiados e adversários abobalhados. Tenho certeza de que os 80 e tantos mil torcedores do Real Madrid que estiveram no Santiago Bernabéu devem ter imaginado que a noite de ontem seria de festa para a turma da casa. Não era para menos. Com 25 segundos, o goleiro Victor Valdez derrapou, em reposição de bola, e o lance terminou em gol de Benzema. Jogada para deixar qualquer um grogue. E, com pouco mais de insistência, levá-lo ao nocaute.

Justiça seja feita, o Real até que tentou jogar o Barça na lona, com o perdão do quase trocadilho. Abafou a saída de bola, tratou de fechar espaços, redobrou-se para frear o gênio argentino e seus fieis escudeiros Xavi e Iniesta. Conseguiu por 20 minutos, tempo nada desprezível, ressalte-se. Porém insuficiente para consolidar a otimista impressão inicial de seus fãs e até da crítica.

Passada a euforia pela vantagem alheia, assimilado o golpe, nervos novamente sob controle, o Barcelona pôs-se a construir sua tradicional teia, que aos poucos, sem se notar, enreda os incautos que nela caem. E o Real Madrid caiu, com todo conhecimento prévio, como tantos outros nos tempos que correm. Vá lá que não houve liberdade para as intermináveis trocas de passes, pois a moçada de José Mourinho apertava, acelerava, destilava adrenalina.

Ainda assim, o Barcelona não se desesperou e também apressou o passo. O técnico Josep Guardiola reconfigurou a defesa, com Puyol, Piqué, Abidal e muitas vezes Busquets. Iniesta, devagarinho, deixou a marcação para trás, Xavi fazia seu papel de pivô, marcador, criador, atacante - enfim, é um dos vários atletas multifuncionais da trupe.

E Messi? Bom, Messi pode não ter sido o extraterrestre de sempre, mas levou terror quando o deixaram minimamente livre. O argentino nem precisa de liberdade total. Bastam-lhes alguns metros para provocar estragos. Num desses momentos de vigilância afrouxada - mas que cavou, com movimentação frenética -, calibrou o pé e enfiou bola sob medida para Alexis Sanchez empatar aos 29 minutos do primeiro tempo.

O Real é grande, é forte, tem história, estava invicto, jogava diante de seu público. Mas sentiu o baque, como um mortal qualquer. Não teve papo de galáctico que segurasse a avanlanche do Barça daí em diante. O sonho madridista desabou na etapa final, com os gols de Xavi e Fábregas. A virada foi magistral, histórica e só não se mostrou mais pesada por defesas de Casillas e certo relaxamento.

Muricy Ramalho viu o jogo, no Japão, com imagens da ESPN. Admitiu que seria chover no molhado falar bem do Barcelona. Como amante do futebol, reconheceu que é um prazer assistir uma exibição de seu provável oponente, no domingo que vem, na decisão do Mundial de Clubes.

A reação do treinador do Santos em nada difere daquela das pessoas que veem o joguinho de bola como arte, diversão, exercício de estratégia, prova de superação. O Barcelona merece reverência. Até dos "inimigos". Pois não teve torcedor do Real a aplaudi-lo ontem?! Muito justo.

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