Ufa, sem favoritos!

É cada vez mais comum ver no mundo do futebol a confusão entre estatística e profecia. Estatísticas retratam tendências do passado, não resultados do futuro. Quando se diz que um time tem 8% de chance de classificação, o que se está dizendo é que a repetição do comportamento médio até ali (vitórias no campeonato, fora ou dentro de casa, contra determinado adversário, etc) pode provocar a derrota. Ou seja, como qualquer torcedor no boteco, o matemático está dizendo: "Vai ser difícil para o Fluminense na Libertadores". Aí o Fluminense, como quando escapou do rebaixamento do Brasileiro em 2009, vai lá, vence e se classifica - e as mesmas pessoas resmungam contra os números.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2011 | 00h00

Na realidade, essa é uma parte de um problema bem maior: falar sobre futebol virou ficar adivinhando placares. Claro, a expectativa que um grande jogo causa é impressionante, como poucas coisas na sociedade, mas será que não podemos falar um pouco mais de futebol propriamente dito? É até divertido passar por colegas nos corredores e perguntar "E então, ganhamos ou não? Tá com esperança?", sem sequer precisar explicar o assunto em pauta. Ou ligar para um amigo e combinar secar um rival... Mas fazer pose e afirmar achismo como se fosse sinal de sabedoria tira justamente essa graça do futebol. Um exemplo recente foi a tabela das quartas de final do Paulista, em que tanta saliva se gastou sobre qual dos clubes grandes ia ter mais dificuldades. Os quatro foram lá e, jogando para o gasto, estão nas semifinais.

Já os jogos do fim de semana são bem menos previsíveis. Pode dar tanto São Paulo como Santos; Palmeiras como Corinthians. Há diferenças entre eles, mas nada tão grande que aponte favoritismo, nem mesmo o mais ligeiro, ainda mais sendo apenas uma partida. O São Paulo não terá Lucas, que é um talento e tanto, mas o esquema com Ilsinho e Marlos na articulação e Dagoberto na frente - Dagoberto que é um dos melhores jogadores do campeonato - tem tudo para dar trabalho à defesa do Santos, embora mais bem posicionada depois da chegada de Muricy. Do outro lado, além de Arouca, Elano e Ganso, o Santos tem Neymar, que continua brilhando, cumprindo a promessa de novo fora de série lançado pelos gramados brasileiros. Marcá-lo com atenção contínua e sem faltas demais é, isso sim, uma probabilidade difícil... Meio metro e meio segundo bastam.

Já o Palmeiras, como era líder até a penúltima rodada, vinha sendo decantado como time "sólido", "equilibrado", que toma poucos gols, etc. Mas os últimos jogos mostraram que não é bem assim. É preciso alguém do meio para a frente que faça a diferença - eis a história do futebol em uma frase, eis tudo que há a dizer sobre tática e técnica. E o Palmeiras tem, sim, esse alguém: Valdívia. Ele protege a bola como ninguém, e o marcador nunca sabe para que lado vai girar; tem malícia e visão; seu mais recente gol foi um belo chute com efeito. Se a fim e em forma, pode deixar um Leandro Castán em grandes apuros. Do outro lado, não há ninguém assim, apenas a presença de área de Liedson e alguns arroubos de William, que nem sempre tem tido a chance que merece.

Mas esses são jogos do domingo e hoje as atenções do mundo se voltam para mais um confronto de Barcelona e Real Madrid. O Barça já meteu cinco no Madrid e é virtual campeão espanhol. O Madrid ganhou a Copa do Rei, com Cristiano Ronaldo decisivo, mas não é consolo. Já bater o rival numa Champions é outra história, ou melhor, História. O Barça é um time extraordinário, mas não infalível. Villa e Pedro não estão na melhor fase e a ausência de Puyol foi sentida. O Madrid tem ainda Di Maria e Özil, afora Kaká começando a reencontrar os bons tempos. Ninguém, porém, faz o que Messi faz. Qual é a estatística? 50%. Por isso mesmo, a expectativa é 100%. Vamos aprender a ver em vez de prever.

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