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Um acontecimento banal

A câmera estava colocada num lugar alto, possivelmente na parte superior do estádio. Embaixo numa espécie de praça ou estacionamento, um grupo grande de torcedores se agitava. Parecia o momento final de uma briga entre torcidas, quando a PM já tomou conta da situação. O que se via eram jovens correndo de um lado para outro sem motivo aparente, gritando ao mesmo tempo palavras que ninguém entendia. Alguma coisa se passou antes da câmera começar a gravar, pensei.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2014 | 02h03

Grupinhos se formavam e logo se desfaziam com os integrantes do grupo voltando a andar a esmo. Mais adiante outros pequenos grupos se formavam e se separavam sem nenhuma explicação.

O fato é que não saíam do lugar. Vagavam rapidamente, alguns correndo, em torno de um mesmo ponto. Os próprios policiais que tentavam dispersá-los definitivamente e livrar o local não sabiam bem como agir. De vez em quando alguns policiais por algum motivo começavam a correr atrás de um grupo, talvez algum que começasse a ficar de um tamanho que considerassem perigoso.

Os jovens, à aproximação dos PMs e seus cassetetes ameaçadores, corriam. Os PMs os perseguiam por alguns instantes depois paravam. Os jovens também paravam. Recuavam prudentemente, mas não iam embora.

Algumas viaturas, de repente, entravam bruscamente no meio dos torcedores forçando a passagem entre eles, que saltavam de lado evitando a trombada com o veículo. De dentro do carro saiam mais policiais, um pouco indecisos, sem arremeter contra os torcedores, mas com seus cassetetes sempre em punho. Por que os torcedores não iam embora de uma vez? O que retinha tanta gente ali?

Talvez eu estivesse enganado e uma briga ainda estivesse por acontecer. Pode ser que estivessem esperando a outra torcida sair do estádio para enfrentá-la. De fato, só se viam torcedores de um único time, de uma única camisa. Não via, por outro lado, ninguém empunhando os habituais pedaços de pau, ou qualquer outra arma, como pedras ou correntes. Mas não havia garotas entre os jovens. Só homens, o que não indicava nada de bom. Mulheres em geral são as primeiras a evitar violência.

Enquanto eu pensava tudo isso, diante da câmera as coisas não mudavam muito. Subitamente, porém, entrou no campo da câmera um novo grupo, e aí sim, as coisas mudaram. Esse grupo carregava um corpo. Eram quatro ou cinco pessoas e dessa vez havia duas mulheres. Uma das garotas levantava os braços como pedindo auxílio e a outra, sem saber o que fazer, ajeitava com uma das mãos o boné que desabava da cabeça que pendia, como da cabeça de um morto. Sim, tinha acontecido alguma coisa com, pelo menos, uma vítima.

A câmera seguiu esse pequeno grupo até que decidiram depositar o corpo no chão de cimento. A vítima estirada num instante atraiu a atenção de outros grupos que se aproximaram. Eu não conseguia mais ver o garoto deitado, com tanta gente ao redor. Ninguém aparentemente sabia o que fazer. Nesse momento ouviu-se um ameaçador ruído de motor e freada violenta.

Os torcedores imediatamente se afastaram correndo, abandonando o corpo caído onde estava. Alguns PMs iniciaram uma débil perseguição dos torcedores que fugiam. Outros PMs, dois ou três, ficaram olhando o corpo a seus pés. Um deles finalmente se inclinou e me pareceu que falava alguma coisa. Vi a mão do ferido respondendo com ligeiro movimento. Mas o resto do corpo continuou imóvel. Pelo menos está vivo, pensei.

Nesse momento, para meu desgosto, a câmera se deslocou, deixou o corpo e se fixou em torcedores que corriam, desta vez perseguidos por cavalos. Fiquei no aguardo para saber o destino do garoto. Continuei vendo uma grande leva da torcida que sumia como um rebanho em debandada, enquanto eu esperava para que a câmera voltasse a enquadrar o jovem no chão. Mas ela não voltou. Afinal era só um garoto caído. Coisa banal dos nossos estádios.

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