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Um Barbosa basta

A surra para a Alemanha no Mundial do ano passado não será esquecida tão já, por mais que personagens envolvidos no maior vexame da história do futebol brasileiro assim o desejem. É necessário ter o episódio presente, até na posse do novo guardião do poder da CBF, como função didática e para que não se repita. No placar, provavelmente nunca mais a seleção sofrerá tamanha vergonha. Já na mentalidade dos cartolas, há dúvidas.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2015 | 02h02

Por que essa conversa outra vez? Vamos lá. Na rodada de meio de semana da Uefa Champions League, a boa e velha Copa dos Campeões da Europa, dois zagueiros brasileiros se destacaram - por lambanças e não por jogadas bonitas. A dupla dos desastrados foi composta por Dante e David Luiz, por nefasta coincidência os que estavam em campo naquela maldita tarde no Mineirão, nove meses atrás.

Dante vacilou no lance que resultou no segundo gol de Quaresma na vitória do Porto por 3 a 1 sobre o Bayern pelas quartas de final da competição mais badalada do mundo. Tão incensada que toma espaço dos clubes domésticos no interesse dos torcedores de cá. A escorregada de David Luiz foi homérica: tomou duas "canetas" de Suárez em gols do Barcelona, nos 3 a 1 pra cima do Paris Saint-Germain. Dribles de fazer o sujeito ficar com vontade de esconder-se em casa por um mês.

Pronto, criado o quadro para retorno ao incidente do Mundial de 14. Dante passou meio batido, pois então não estava em evidência; era coadjuvante no grupo de Felipão. O mesmo não aconteceu com David Luiz. Como despontava como um dos líderes do grupo, como aparecia em propagandas e tinha apelo com o público, levou saraivada de críticas após o atropelamento dos alemães e voltou a ser alvo preferido de reprimendas desde anteontem.

David Luiz foi detonado, em comentários nos meios de comunicação e nas redes sociais, e imediatamente associado àquele resultado inominável de julho. Atitude impiedosa, maldosa e injusta. O povo ainda busca vilões para justificar o horror em Belo Horizonte, e não perde ocasião para escolher alguém em definitivo. Primeiro foi Felipão, depois Fred e assim por diante. Incluído o zagueiro cabeludo. Agora, com o desempenho atrapalhado em Paris, retornaram com força os dedos acusadores. Enganador, grosso, perna de pau, falastrão, supervalorizado compõem parte do dicionário de definições pouco elogiosas dirigidas ao moço.

Não se trata de assumir defesa gratuita de profissional treinado para exercer com eficiência o papel que lhe cabe. Ele que assuma os erros, como o fez após o jogo. David falha e talvez não seja o fenômeno da zaga que supõem os gringos ou ele mesmo. Tampouco é perna de pau. Paga por bobagens e equívocos da seleção e do PSG. Atrai ira, também, pela fama, pela exposição. Inveja é humana - e quem sobressai desperta dor de cotovelo. Os tombos de famosos são comemorados porque redimem os que vivem na penumbra do anonimato - e estes são maioria.

Já basta a pena de condenação eterna imposta a Barbosa, goleiro da seleção de 1950 e considerado culpado pela derrota de virada por 2 a 1 para o Uruguai que custou o título mundial e deu origem ao termo "Maracanazo". Carregou até a morte o estigma daquela catástrofe. Não precisamos de outro mártir da bola.

Agora vai. A CBF desde ontem está, digamos assim, sob nova direção. Saiu José Maria Marin, assumiu Marco Polo Del Nero. A dobradinha já estava no poder havia três anos, desde que topou quebrar o galho para o ex da entidade, que viu o panorama ficar-lhe desfavorável por aqui e se mandou para exílio de luxo nos EUA.

No beija-mão de que participaram cartolas de todos os matizes, Del Nero prometeu administração moderna, voltada para os interesses de clubes e federações e criticou a Lei de Responsabilidade Fiscal. Pelo visto, logo o Brasil volta a ser potência no mundo da bola. Vejamos.

Em tempo: deixei de acreditar em Papai Noel aos oito anos de idade.

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