Um brasileiro que já assistiu, in loco, a 3 títulos e 8 fracassos

A Copa da África do Sul é a 12ª do advogado René Granado. À beira dos 70 anos, ele já sonha com a 13ª

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2010 | 00h00

"Sou René Granado, de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro (faço questão) e tenho uma dúzia de Copas do Mundo nas costas. Pra valer, não é só maneira de falar. Se você olhar bem, é capaz de me achar na torcida, eu com a camisa da seleção, meu nome e o número 12 atrás, circundado pelos anos dos Mundiais em que estive de corpo presente: meia-dois, meia-meia, 70, 74, 78, 82, 86, 90, 94, 98, 2006 e agora, 2010. Não é uma, não são cinco, não são dez. São "douze" Copas, tá me entendendo? O penta na Ásia eu perdi, fazer o quê? Estava muito caro. Sou apenas um torcedor, meu querido. Nunca ganhei um ingresso. Sempre paguei do meu bolso.

Então você faça as contas. Estou pra completar 70. Se o Chile foi meu primeiro Mundial, lá se vão 48 primaveras seguindo esse time. Sempre foi uma alegria, mesmo nas derrotas mais tristes. Pra mim é o clima que vale, compreende? A festa, a chance de ficar perto... Eu levo os instrumentos todinhos e fazemos aquela algazarra, eu e meus amigos de Nova Iguaçu, onde eu e minha senhora vivemos - faça o favor de frisar isso, eu faço questão -, onde sou advogado tributarista e onde, nos áureos tempos, andei marcando meus golzinhos pela Associação Atlética Volante. Rapaz, eu era um ponta-de-lança até que direitinho, viu... Usava a 10, como o Zico. Sou Flamengo, tá certo?

Como ia te dizendo. Esta Copa da África vou contar uma coisa. Chatinha, não é? Depois de Brasil x Costa do Marfim, corri direto praquela Nelson Mandela Square, sabe qual é?, achando que teria um samba e qualquer coisa... Nada, só dois brasileiros jantando. O nível dos jogos anda muito baixo. Lembra a de 94, com a diferença que lá nos Estados Unidos tínhamos batuque até altas horas e o melhor jogador da galáxia dentro da área, que se chama Romário de Souza Faria. Igual a ele não teve, não tem e nunca vai ter, podem espernear os Luíses Fabianos da vida. Waiter, a coffe for my friend here, please.

Tem uns 20 dias que estou em Johannesburgo e não fui a um treino da seleção. Nem vou. Dar com a cara na porta? O Dunga fechou tudo, não foi? E ainda por cima aqui é meio difícil de a gente se locomover. Minha senhora fica preocupadíssima lá no Brasil, achando que é só botar o nariz fora do hotel pra vagabundo vir te ganhar. Não é tão ruim assim, meu bem, digo a ela. Mas dessa vez estou indo só aos jogos mesmo. O que me deixa triste, cê tá entendendo? Torcedor gosta de ver treino, saber como está o time, quem tá rendendo, quem não tá, dar apoio, essas coisas.

Mas, meu querido, você perguntou como foi a minha primeira Copa. Vou te contar. Fomos de Kombi de Nova Iguaçu a Viña del Mar, eu e cinco amigos. Me lembro como se fosse hoje: todos os dias estávamos no treino da seleção, em Quilpué. Tenho foto com Zagallo, com Didi. O Aymoré Moreira, que era o técnico, vinha na beirada do campo conversar. Na antevéspera da final, encontrei o Garrincha circulando pelo saguão do hotel. Estavam também por ali o Lucho Gatica, aquele cantor de bolero, e a senhora dele, de quem jamais esqueci os olhos. Rapaz, uns olhos acinzentados, eu nunca tinha visto um negócio daquele. Mas tinha a história de que o Garrincha estava com febre e talvez não jogasse a decisão. Aí eu fui lá perguntar:

- Então, Mané, tu vai jogar a final?

- Contra quem que é?

- Checoslováquia.

- Aqueles que usam o calção lá embaixo?

- Esses.

- Então eu vou. Contra o São Cristóvão, não gosto de ficar de fora.

Era assim, tudo mais tranquilo, mais gostoso. Em 66, fecharam um bocadinho. Não podíamos nos aproximar tanto do campo de treinamento. Ainda assim dava pra ver a garotada que o Feola chamou: Tostão, Gérson, Jairzinho, que depois brilharam em 70. Era como se o Dunga tivesse trazido Ganso e Neymar agora, pra eles brilharem em 2014. Mas se tem uma coisa que o Dunga não gosta é brilho, tá certo? Ele não tem polimento. E os jogadores vão pelo mesmo caminho. Parecem uns robôs, uns zé-manés, repetindo aquela ladainha de família unida, maltratando vocês da imprensa e não sei mais o quê.

Mas quer saber? Periga ganhar esse troço e aí já viu. Depois que botou a medalha no peito danou. Você acha que o Dunga faz tudo isso por quê? Porque ele tem medalha no peito. O Mazinho também. Até o Viola tem. São todos campeões do mundo. Mas o Zico não é, o Sócrates não é, o Falcão não é. Telê não é. Então eu te digo: medalha no peito, cê dá licença o palavrão, medalha no peito é a p#$@&%! Waiter, water, please.

Birinaite. Agora, que ninguém tem personalidade nesse time do Dunga, não tem. Não como em 78 pelo menos. Naquela Copa, nossa turma alugou um apartamentinho em Mar del Plata. Encontrar jogador da seleção em dia de folga era a coisa mais fácil do mundo. Eles paravam, davam autógrafo, tiravam retrato. Certa vez, cruzamos com o Rodrigues Neto, lateral do Fluminense, sabe qual? Cruzamos com ele na rua e o chamamos prum birinaite: "E aí, malandro, tá a fim de um uísquinho?" Passamos a tarde tomando um trago e jogando conversa fora. E você acha que por causa disso ele jogou melhor ou pior? Ora, faça-me o favor.

Aí vêm dizer que aquela Copa era da ditadura, que botaram o Cláudio Coutinho de técnico porque ele era militar... Ditadura pra mim é prender o jogador no quarto com aqueles joguinhos deles lá, como é mesmo o nome? Video...video.. hein? Isso. Videogames.

Qual seria a minha seleção pra essa Copa? Toma nota, faz favor. A defesa não tem erro, é quase a mesma que está aí: Júlio César, Maicon, Juan e Gilberto. No meio-de-campo, Gilberto Silva, Hernanes, Kaká e Ganso, o nosso Zidane. Na frente, Neymar e Adriano, porque não tem seleção no mundo em condições de abrir mão de um Adriano. Bastava o Dunga ter dito que contava com ele pro Mundial que ele teria se cuidado. Vamos de Grafite, paciência.

Xi, rapaz, olha quem vem aí. É o craque da seleção da África do Sul. O 10 deles, Pienaar. Eles estão nesse hotel também. Que é, meu querido? Uma picture contigo? Sim, uma foto com o melhor técnico do mundo. Conheço sua história, o Parreira me contou. Doze Copas do Mundo...

Que simpatia esse moço. O Parreira, de quem sou amigo, deve ter falado que estou no meu 12.º Mundial e ele quis tirar um retrato. Tem dessas coisas. Ontem um argentino me parou na rua depois de ver minha camisa. Queria saber quem era esse René Granado que jogou tantas Copas pelo Brasil. Expliquei a história, tiramos um retrato e ele se foi contente. A que ponto cheguei, você está vendo? Antigamente eu ia a um Mundial e tirava foto com jogador brasileiro. Hoje, com torcedor argentino...

Mas me deixa te dizer uma coisa, meu querido: apesar dos pesares, tô com a seleção. Se não estivesse, não estaria mantendo o meu ritualzinho que vem desde 62. Não vai escrever isso aí, mas eu visto sempre a mesma roupa para ir aos jogos do Brasil.

Camisa, calça, cueca, meia, tudo. E sem lavar. O resultado é inversamente proporcional ao desempenho do time, cê tá entendendo? Se pego uma campanha dramática como a de 90, quando fomos eliminados logo nas oitavas, tudo certo. Mas se vamos caminhando bem jogo após jogos, como em 70, você imagine o futum no dia da final.

Um sonho? Não, que ganhar essa Copa o quê! Meu sonho é chegar ao meu 13.º mundial. E com mais samba que este, já que vai ser lá no nosso Brasil. Tenho tudo esquematizado aqui na minha cabeça. Número 13 nas costas, Zagallo de padrinho, Ganso no meio-de-campo, Neymar de centroavante e Luxemburgo no comando. Aí morro feliz."

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