Um brinde à discordância

Durante algum tempo, achei que fosse possível tratar o futebol só com racionalidade. Não demorou para perceber que apenas alimentava uma utopia. Assim como jogar, é impossível comentar, analisar e discutir o tema sem considerar a paixão e a emoção nele presentes. Atualmente, não só convivo bem como me divirto com as polêmicas e o aspecto lúdico deste esporte. Apesar disso, todo o quiprocó que marcou a última rodada do Brasileiro motivou comportamento que, confesso, me preocupa.

WAGNER VILARON, wagner.vilaron@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2010 | 00h00

Calma, muita calma. Não vou falar sobre o lance do pênalti sobre Ronaldo no jogo entre Corinthians e Cruzeiro, sábado (isso mesmo, sábado, cinco dias atrás), no Pacaembu. Pois é, nenhum gol dessa temporada foi tão discutido e repetido quanto o episódio entre o zagueiro Gil e o atacante corintiano. Prometi não falar sobre o lance em si, mas não evitarei comentar suas consequências. Aí, sim, identifico alguns pontos que ainda são passíveis de reflexão.

O primeiro deles é a incrível dificuldade que alguns demonstram em conviver com opiniões distintas das dele. O sujeito simplesmente não aceita que alguém tenha uma interpretação ou consideração que não vá ao encontro de sua conclusão. E, quando não consegue convencer seu interlocutor a aceitar sua verdade, simplesmente passa a desqualificar suas argumentações.

Em situações como essa percebemos que as pessoas insistem em tratar o futebol como um universo à parte em nossa sociedade. Senti na pele isso nos últimos dias. Ao perceberem que sua argumentação derretia, se fragilizava, muitos apelam para o famoso "ah, mas você é peladeiro. Nunca jogou futebol profissional". Pronto, com isso imaginam ter encerrado o assunto.

O curioso é que esse mesmo sujeito não acha que o jornalista político tenha de ter exercido um cargo legislativo ou executivo para falar/escrever sobre política. Nem que o jornalista de economia tenha de ter trabalhado em alguma secretaria da fazenda ou no Banco Central, que o repórter de cultura deveria ter atuado em alguma peça, novela ou longa-metragem ou que o editor de internacional precisasse ter sido embaixador ou secretário-geral da ONU.

O outro aspecto que chamou atenção foi o destempero, mais uma vez, de dirigentes e jogadores. Essa gente insiste em não entender o poder que seus gestos e palavras têm sobre a massa torcedora. Admito que o calor e a adrenalina do jogo provocam atitudes mais exaltadas. Mas o cuidado que o presidente do Cruzeiro, Zezé Perrella, tomou para poupar o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e do Corinthians, Andrés Sanchez, de seus palavrões mostrou, antes de mais nada, extrema racionalidade. Perrella jogou para a torcida. Político hábil, não se preocupou em falar o que pensava, mas sim o que seus "eleitores" gostariam de ouvir. Na política isso é lamentável. No futebol, perigoso, exatamente por não ser um ambiente racional.

Palmeiras. O grupo que apoia a candidatura de Salvador Hugo Palaia na eleição para presidente do Palmeiras, em janeiro, garante que Luiz Gonzaga Belluzzo vai apoiá-lo. A atitude faz parte de um acordo feito há dois anos, quando Palaia trabalhou pela vitória de Belluzzo em troca da recíproca em 2011.

Seleção. Ouvi isso no Parque São Jorge, de gente que conversa com Mano Menezes com relativa frequência. O técnico da seleção brasileira gostaria de ter no grupo que imagina montar para a Copa do Mundo do Brasil atletas que tenham a "grife" de campeões do mundo. Ou seja, que participaram da campanha de 2002. Assim, deve manter Ronaldinho Gaúcho nas próximas listas, uma vez que são poucas as opções. Mano acredita que essas figuras são importantes como referência de sucesso aos jovens.

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