Um campeão

Seria impossível vê-lo mover-se, cruzar seu olhar, sem perceber que se tratava de um campeão. Elegante, alto, magro, negro, de passadas rápidas e sorriso confiante lembrava, neste país da bola, um centroavante clássico, cabeceador, oportunista e esperto. Não era. Seu esporte era o atletismo, o salto em distância, no qual foi medalhista olímpico. Seu nome era Nelson Prudêncio.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2012 | 02h04

Nos encontramos em fevereiro ou março deste ano para um depoimento que ele me daria, parte de um documentário exibido pela ESPN sobre a Olimpíada de 1968. Não parecia ser uma pessoa de muito falar, mas quando entramos no assunto de sua especialidade dava explicações precisas, seguras, completas. Era um apaixonado do seu esporte. Intrigado pela maneira exata como falava fui descobrindo aos poucos que essa forma quase sofisticada de falar vinha da formação universitária que o esporte lhe proporcionou. De fato, fazia questão de mostrar não só que era um atleta, um grande atleta, mas também um professor.

Desfilava explicações, em grande parte baseadas na ciência aplicada ao esporte, e, quando via oportunidade, se referia à sua atividade no magistério, exercida na Universidade de São Carlos. Esse modo professoral de abordar o assunto, no entanto, era matizado por um forte sotaque do interior paulista, muito característico, manso, doce, que pedia o sorriso que inevitavelmente o acompanhava. Isso dava uma notável humanidade ao que dizia, mesmo quando citava estatísticas ou números.

Pedi que falasse de sua façanha na Olimpíada de 1968. Foi uma das maiores competições já disputadas numa Olimpíada. O recorde mundial passou de um atleta para outro cinco vezes antes que a prova fosse decidida. Prudêncio estava com a medalha de ouro nas mãos, mas faltava o último salto do soviético Victor Seneyev. Todo o estádio estava paralisado, todos os olhos se voltavam para esse salto. E o soviético suplantou Prudêncio, ficou com medalha de ouro. Prudêncio foi o heroico prata. Uma das três medalhas que o Brasil trouxe daquela Olimpíada. E ele se orgulhava disso.

Sabia de seu feito num país que nunca deu atenção a qualquer esporte. Um país que espera que seus atletas se façam sozinhos. Um país que crê em milagres e fenômenos. Falando de maneira bem humorada sobre o resultado final ele disse: "Seneyev saltava desde os 12 anos, treinava duas vezes por dia, tinha todo o apoio do governo. Merecia ganhar. Aqui, atleta começa com 20 anos, treina três vezes por semana. Quer o quê?" Quando alguém faz um filme, vê e revê tantas vezes as imagens, dia após dia, corrige, corta, vê de novo, que no fim do processo os personagens são muito mais do que rostos familiares, simples conhecidos.

Assim foi com Prudêncio. Ele nunca saberá. Mas esteve muito próximo de mim por longos meses. O que faz de sua morte algo ainda mais chocante e dolorido.

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