Um campeão mundial para lá de discreto

C.J. HOBGOOD

Giuliander Carpes, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2011 | 00h00

Pouco badalado, norte-americano é atração em Fernando de Noronha

Não é só de Kelly Slater que vive o surfe dos Estados Unidos - que tradicionalmente não engloba os feitos dos havaianos, embora o Havaí seja um Estado americano. Bem menos conhecido, C.J. Hobgood, já nos anos finais de sua carreira, ainda apronta das suas. Atual dono do troféu do Hang Loose Pro, evento que abre a temporada e está apenas abaixo dos 10 campeonatos do chamado circuito mundial, o surfista defende seu título em Fernando de Noronha com simplicidade e humildade. Nem parece que ali está um campeão mundial (de 2001).

Agora que não se sabe em que estágio está a motivação de Kelly Slater - levou o 10.º título mundial em 2010 - para competir, C.J. não costuma ser cogitado como um dos prováveis candidatos ao maior troféu do surfe ao final do ano. Aliás, o americano até perdeu um patrocínio para a temporada. Mas não se abala. Sem criar muitas expectativas, vai somando resultados que o mantêm na elite há 10 anos - ontem passou fácil para a segunda fase. "Óbvio que quero vencer campeonatos, mas minha meta é surfar bem, aproveitar, curtir minha família", diz o surfista. Ele confia que Slater não se doará muito ao circuito nesta temporada.

Você está sem patrocínio agora. Como está sendo essa fase da carreira?

Não sei, é um período de transição. Por outro lado, também me sinto um pouco mais livre. Posso voltar a ser como no começo da minha carreira, correr o circuito só pelo prazer de aproveitar boas ondas. É um pouco diferente e me sinto bem, tenho me divertido. Muita gente nesse circuito não tem patrocínio, então não estou sozinho e também não é o fim do mundo. É uma motivação diferente que talvez eu não tivesse antes.

Como você vê o circuito nestes tempos em que não sabemos se Kelly Slater vai competir?

Não vejo mais de onde Kelly pode tirar motivação. O 10.º título foi tão importante, um feito tão grande... Estou provavelmente errado, mas vejo Kelly disputando apenas alguns eventos, os de seu patrocinador. Talvez uma de suas únicas motivações agora seja ganhar o campeonato de US$ 1 milhão (que será realizado pela primeira vez em Nova York, em setembro), surfar as maiores ondas. Não o vejo mais competindo durante uma temporada inteira, sujeitando-se a competir em condições ruins, que ele não pode escolher. Vamos ver como vai ser. Definitivamente, vai abrir espaço para a nova geração. Há muitos bons surfistas vindo, surfistas com muita vontade de vencer.

O que podemos esperar desse campeonato de US$ 1 milhão? Aqui no Brasil nem sabíamos que Nova York tinha ondas.

É uma onda como os beach breaks (praias com fundo de areia) normais, em Long Island, com a água mais gelada. Mas as ondas lá têm bastante força. Acho que pode ser divertido para os surfistas. Sou da Flórida, já estive em Nova York, e a cidade é maravilhosa, sempre surpreendente e tão deslumbrante, com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Posso imaginar pessoas que nunca estiveram lá se deslumbrando. É legal, diferente que os surfistas possam ter

essa experiência de competir em uma grande cidade como Nova York.

E como você vê suas chances para o ano?

Eu quero surfar bem, pegar boas ondas. Óbvio que quero vencer campeonatos, mas surfar bem, me sentir satisfeito nas competições, estar com minha família são os principais desejos. Vamos ver o que acontece. Não quero colocar muita pressão sobre meus ombros, nem criar muitas expectativas.

Você acha que Fernando de Noronha é um bom aquecimento para o começo dos eventos mais importantes na Austrália (a partir do dia 26)?

Acho que sim. As ondas são bastante diferentes, mas é importante para entrar em ritmo de campeonato. Aqui há ondas muito boas e não há motivos para não vir para cá nesta semana.

Você acha que seria possível colocar o evento de Noronha entre os mais importantes?

Acredito que sim. Teria apenas que abrir a temporada aqui e não na Austrália, como a ASP faz todos os anos (porque as ondas de Fernando de Noronha são melhores no verão). Mas não vejo problema. É difícil por causa da tradição que existe de começar as temporadas na Austrália e fechá-las no Havaí, mas não vejo motivos para não fazer isso. Essas são as melhores ondas do Brasil, por que não fazer o campeonato aqui? Começa aqui e depois parte para a Austrália. Tem um evento em Nova York, por que não fazer em Fernando de Noronha? Não podemos dizer que não há maneira de fazer sem tentar.

Você está com 31 anos, vive pelo circuito há muito tempo, já pensou em parar?

Ainda é um privilégio estar por aí. Não penso em parar. Talvez faça isso lá pelos 35 anos. Não quero ter nenhum arrependimento no final da minha carreira e ainda consigo surfar os maiores eventos de forma competitiva, então quando chegar aos 35 provavelmente eu pense em parar.

Você foi campeão mundial, mas as pessoas muitas vezes esquecem de você quando falam do surfe norte-americano. Fala-se apenas de Kelly Slater.

Não tem problema. Kelly conquistou muita coisa. De minha parte, fico feliz de olhar para trás e ver que um cara da Flórida como eu, goofy footer (pisa com o pé direito na frente da prancha, o menos comum), conseguiu fazer tanta coisa na carreira. Se você for ver, nenhum goofy footer ganhou um campeonato mundial além de mim nos últimos anos, então isso é importante e me deixa muito feliz. A gente não sabe quando haverá outro, porque é definitivamente mais difícil de surfar com esse estilo. Mas tudo bem. Não comecei a surfar porque era fácil, mas sim porque queria surfar bem e vencer.

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