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Um caso único

Fatos só servem para atrapalhar. Quando temos uma teoria bem elaborada, que parece resistir a qualquer prova, lá vem os fatos para contrariar. Eu, por exemplo, tinha a sólida convicção de que, com os preços dos ingressos nas novas arenas, haveria uma exclusão devastadora de torcedores e o futebol passaria a ser propriedade de uma nova gente, que podia pagar e não se importava de pagar. O futebol mudava definitivamente de cara e o torcedor mais popular, desiludido, se afastaria para sempre dos estádios.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2015 | 02h03

Pois bem, estava eu muito tranquilo com a minha verdade incontestável quando me deparo com os fatos. Uma exceção, é verdade, mas que lançou dúvidas sobre a teoria inteira. Aconteceu domingo passado pela manhã. Algo, que não interessa para o caso, me levou para a rua Turiaçu, fechada para o transito de veículos na altura da arena do Palmeiras, já que o time da casa ia jogar com o Flamengo.

Falei time da casa e devia ter dito time da rua, pois a rua, a partir da Avenida Sumaré, pertence e sempre pertenceu ao Palmeiras, seu mais ilustre morador.

Há muitos bares ao longo desse trecho, todos anteriores à nova arena. Todos com alguma coisa de cor verde para, por via das dúvidas, mostrar abertamente sua adesão ao time da rua.

Que os torcedores se agregassem antes do jogo nesses bares era comum. Que, depois do jogo, voltassem para se lamentar ou comemorar era igualmente comum. O que me pareceu insólito nesse domingo é que o jogo começou e a rua continuou cheia, os bares repletos. Uma turba imensa ocupava a rua e o interior dos bares. Entrei como pude num deles e fiquei observando. Lá estavam os excluídos, lá estavam os que por algum motivo não puderam entrar no estádio. Todos vestidos com suas camisas verdes, muitos da Mancha, todos grudados nas televisões - havia três, que o bar punha a disposição.

Comecei a perceber que se sentiam bem, perfeitamente integrados ao clube, não notei traço de exclusão alguma. Torciam como se estivessem dentro do estádio. De alguma forma estavam no estádio. Do lado de fora, mas lá estava ele ao lado, majestoso, imponente. E o pessoal, grudado na televisão agia exatamente como se estivesse lá dentro e em coro sincronizado com o que acontecia. Se dentro havia um grito, havia o mesmo grito sincrônico nos bares. Se havia xingamentos, como no momento em que o Flamengo fez o segundo gol, havia os mesmos xingamentos nos bares. O bar tinha se transformado num pequeno estádio. Fiquei pensando que aquelas pessoas tinham cumprido o ritual que todo torcedor obedece. Vestiram a amada camisa, saíram de casa, se dirigiram para o estádio no mesmo horário dos demais, chegaram à rua Turiaçu, mas não entraram. Tinham inventado uma nova maneira de torcer, porque não se tratava de ir para qualquer bar da cidade, mas para um bar da rua Turiaçu, junto ao estádio, do outro lado da rua. A exclusão não pôde com eles. Eles lá estavam para ver o jogo como qualquer torcedor do Palmeiras, no mesmo lugar sagrado em que sempre se deram os jogos do Palmeiras. Podem ter sido retirados do estádio, mas não da rua, não da frente dele. E pareciam se divertir muito, afinal atualmente a imagem dos aparelhos de tevê é ótima.

Fiquei 90 minutos ouvindo as mesmas vozes, os mesmos gritos desesperados e a mesma tensão, como se estivesse na arquibancada do velho Parque Antártica. Vi que o Palmeiras é um clube único, o último grande clube de bairro da cidade. E vi também que tinha ficado muito grande para caber em qualquer arena. Quando saiu o quarto gol os bares explodiram em gritos e abraços. Havia na rua pelo menos três mil pessoas. Era impressionante a solução que encontraram de chegar tão perto da sua paixão. O jogo terminou e todos saíram juntos e misturados. Os que estavam dentro do campo e os que estavam nos bares. O Brasil não está tão ruim assim.

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