Um clássico como nos bons tempos

Um grande escritor italiano diz que livros clássicos são aqueles que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado, e uma riqueza não menor para quem os lê pela primeira vez nas melhores condições.Essa definição transposta para o futebol me faz pensar que estou catalogado na primeira parte da definição. Vi muitos clássicos e certamente eles fazem parte da minha riqueza particular e interior. Uma das características dos clássicos é que o atual nos remete ao anterior, o anterior a outro mais longínquo ainda, e assim cada vez mais para trás, de modo que, apesar de um só e com o mesmo título, formam uma coleção de experiências extraordinárias sempre renovadas. É mais ou menos o que os músicos chamam de variações sobre um mesmo tema. Domingo passado houve um grande clássico: Palmeiras e São Paulo. Um dos melhores dos últimos tempos e sobre as alternativas e acontecimentos extraordinários da partida já se disse tudo ao longo da semana. Como foi um jogo emocionante imediatamente me levou a outros Palmeiras e São Paulo empolgantes do passsado, e assim passei a recordá-los o que fez começar imediatamente um desfile de grandes jogadores, não necesariamente apenas desses clubes, que frequentemente reaparecem diante de mim convocados pela memória. O Palmeiras e São Paulo de domingo foi tão digno de jogos do passado que talvez tenha visto nele coisas que não existem. Comecei, entusiasmado, a fazer comparações entre o que vi no domingo e o que vi ao longo do tempo.Talvez seja o entusiasmo por um jogo raríssimo hoje em dia, mas descobri em Kléber, do Palmeiras, semelhanças com Toninho Guerreiro, craque do Santos e do São Paulo. O nome já dizia tudo a respeito do Guerreiro. Tinha bola para todos os momentos e todas as circunstâncias. Não era grande, mas enfrentava qualquer defesa. Se preciso, usava a técnica, se necessário, a garra, a guerra. Caía para os lados, mas quando menos se esperava estava na área sempre no melhor lugar, isto é, no lugar exato.Era um artilheio implacável e foi um das mais injustiçados na convocação para a Copa de 1970. Foi cortado sob argumento ridículo. O que não o impediu de ser por cinco vezes seguidas artilheiro do Campeonato Paulista, quando no Paulista jogavam Cesar Lemos, Enéas e Pelé, por exemplo. Três pelo Santos e duas pelo São Paulo. Falta muito para o Kleber chegar perto do Guerreiro, mas pelo, menos faz lembrar dele. É um bom começo.Hernanes, por outro lado, me lembrou outro Toninho, o Cerezo. Na passada larga, no passe preciso e, principalmente, em perceber o lugar vazio do campo e estar sempre nele.Cerezo tocava a bola para alguém e parecia desaparecer de cena. Ia aparecer dois lances depois, num espaço que nenhum adversário tinha tido a idéia de cobrir. Nem sabiam que esse espaço ia aparecer, mas ele sabia e estava lá, mágico, previdente. Teve azar naquela partida contra a Itália em 82 e ficou marcado. Sua técnica, porém, era de primeira categoria e provou isso em muitas temporadas na própria Itália. Ainda falta para Hernanes ser o Cerezo, mas às vezes tenho a impressão de que está perto. Talvez só falte a jogadores como Kleber e Hernanes a alegria de jogar futebol que havia em outros tempos. Se os treinadores pararem de berrar instruções em seus ouvidos, pode ser que se tornem mais que lembranças do Guerreiro e do Cerezo.

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