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Paulo Calçade
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Um clássico em cada tempo

O empate entre Corinthians e Santos foi mais um exemplo de como o calendário insano tem estragado o jogo. A partida foi boa, mas poderia ter sido muito melhor se um degrau não separasse o primeiro do segundo tempo, obra do desgaste físico que dominou a equipe de Tite.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2015 | 02h01

Na primeira parte, o Corinthians conseguiu levar a campo um pouco do ritmo e da qualidade do grande futebol exibido desde o início da temporada. O detalhe, no entanto, ficou por conta das finalizações imprecisas, que poderiam ter criado uma vantagem impossível de ser eliminada.

Ficou no quase, pois no segundo tempo, com Geuvânio no lugar de Elano, o Santos foi mais agressivo, conseguiu equilibrar a partida. Menos pela posse de bola, mais pela movimentação. Faltou oxigênio ao Corinthians para acompanhar o adversário, disposto a empatar e virar o confronto.

Pelo o que tem jogado em 2015, naturalmente a equipe corintiana se transforma no balizador do que tem acontecido no campo, numa comparação justa entre o que joga e pode jogar.

Os números são frios ao explicar o abismo entre os tempos do jogo, divididos pela queda do rendimento físico corintiano e pela mudança da postura santista. A posse de bola ficou praticamente igual, 51 a 49%, mas as diferenças podem ser facilmente encontradas nas finalizações e nos desarmes.

Na primeira etapa, os corintianos chutaram a gol 11 vezes a mais que os santistas, que se recuperaram na segunda com 7 de vantagem. Outro indicador da melhora do time de Marcelo Fernandez e da queda da qualidade física do grupo de Tite está nos desarmes. Depois do intervalo, o Santos fez 18 contra 4.

Para uma equipe compacta e coesa, com sistema defensivo reconhecidamente sólido, o baixo número de recuperações é revelador. Do início do mês de março até ontem, o Corinthians realizou 12 partidas em 36 dias, contra 9 do Santos, dedicado ao Paulistinha e à Copa do Brasil.

Anos e anos de mata-mata e de administrações funestas dos cartolas cristalizaram no torcedor brasileiro a ideia de que a composição do sucesso tem mais a ver com o acaso do que com o trabalho. Daí a nossa dificuldade em admirar a boa fase de uma equipe de futebol, como a do Cruzeiro, bicampeão brasileiro, ou a do Atlético Mineiro, campeão da Copa do Brasil.

Para este Corinthians ficar marcado na história será necessário ganhar pelo menos um título expressivo, o que obviamente exclui o Estadual. A melhor equipe do País possui características quase únicas no futebol brasileiro, que devem ser observadas e analisadas por todos os seus concorrentes, o que não significa copiá-las.

Quando vemos o São Paulo desmembrado, sem iniciativa e sem coragem, nos perguntamos o que está acontecendo com o time de Muricy Ramalho. Esse questionamento, seguido de espanto, não atinge apenas o torcedor tricolor. Gente experiente, com muita tarimba dentro de campo, também procura respostas em meio ao espanto.

Encontramos no futebol duas correntes sobre a construção de um grupo eficaz e vencedor. De um lado está a visão que tudo minimiza e simplifica, respaldada pelo passado e por acidentes do destino, na qual só existe o craque, começo e fim de todo o processo. Do outro, a que acredita na complexidade do futebol, que considera, examina e investiga o método. E acredita no ser humano, não na máquina como base da evolução.

Os clássicos não salvam o campeonato, mas nos dão a certeza de que se os clubes grandes desejarem, como agora parecem desejar Flamengo e Fluminense, contrários aos desmandos da Ferj, não será difícil encontrar uma saída honesta para o futebol brasileiro, inclusive para os pequenos. Está logo adiante.

Só precisa de um empurrãozinho, de coragem para dar um basta na podridão que se abastece da fragilidade dos clubes brasileiros. Só o clube forte pode encarar o sistema.

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