Um clássico pela classe operária

Um clássico pela classe operária

É apenas uma taça entre muitas outras. No entanto foi para ela que se dirigiu a atenção de um atento e habitual visitante da sala de troféus do Parque Antártica: o deputado Aldo Rebelo. Ela trazia a seguinte inscrição: "Homenagem do Movimento Unificado dos Trabalhadores - 13 de outubro de 1945 - Palmeiras x Corinthians".

Ugo Giorgetti, O Estadao de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

O deputado logo se lembrou que o Movimento Unificado dos Trabalhadores, o MUT, era o braço sindical do Partido Comunista do Brasil. Como? Então Palmeiras e Corinthians tinham realizado um jogo em benefício do Partido Comunista?!

A taça ali na sala de troféus indicava um fato tão inconcebível para os dias de hoje e tão estranho ao que se tornaram depois o futebol e a própria sociedade, que Aldo Rabelo resolveu pesquisar.

O resultado de seu trabalho é o livro Palmeiras x Corinthians 1945, o jogo vermelho, que acaba de ser lançado pela editora Unesp, com a história dessa partida surpreendente e soterrada. E o que torna o livro mais interessante e valioso é que o jogo é colocado dentro da história, isto é, dentro do momento particular que viviam o Brasil e o mundo naquele distante 13 de outubro de 1945.

Nesse dia os jornais anunciavam que o presidente da república Argentina tinha renunciado e que, na Alemanha, tinha começado o julgamento de Nuremberg, para apurar crimes nazistas. No Brasil, eleições se preparavam com Gaspar Dutra e Eduardo Gomes candidatos à presidência da República. E o Partido Comunista, recém-integrado à legalidade, esforçava-se por levantar recursos para a campanha em que se empenhava pela criação de uma Assembleia Nacional Constituinte. Daí a ideia de um amistoso entre Palmeiras e Corinthians, os dois times mais vinculados ao mundo operário de São Paulo.

As negociações com as diretorias dos clubes para a realização desse incrível jogo, a cobertura dada pela imprensa, os preparativos na semana do dia 13, a naturalidade com que essa partida era aceita e o destino da arrecadação, tudo está descrito e ilustrado, nesse belíssimo trabalho de pesquisa.

Os acontecimentos históricos relevantes se misturam a fatos divertidos e pitorescos que apontam para um mundo onde as coisas eram mais simples e fáceis de organizar. Um exemplo disso é a indecisão para marcar exatamente o dia da partida. Apesar de a imprensa já estar largamente divulgando o jogo, a data só foi acertada de maneira definitiva às vésperas do dia em que realmente se deu. Havia temor de que operários que costumavam trabalhar aos sábados à tarde não pudessem comparecer ao jogo.

Bons tempos em que ainda se supunha que o trabalho pudesse atrapalhar o futebol. Às 15,30 do sábado os times entraram com seus melhores jogadores. O Palmeiras com Junqueira, Waldemar Fiúme e Canhotinho. O Corinthians com Domingos da Guia, Servílio e Cláudio Cristovão Pinho. O grande Oswaldo Brandão fez sua estréia como treinador de futebol nessa partida, orientando o Palmeiras. Servílio e Caieira foram citados na súmula pelo juiz João Etzel como "praticantes de jogo violento proposital". O primeiro tempo terminou com o Corinthians na frente por 1 a 0. No final, deu Palmeiras, 3 a 1. O público, apesar do frio, foi muito grande no jogo em benefício do MUT. Naquele 13 de outubro de 1945 a mínima foi de 8 graus e a máxima de 16. "Fazia frio em São Paulo, nevava", como no poema de Drummond.

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